quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Bob Dylan -Transformar o cara em Cristo só pra depois chamar de Judas.

       Talvez já tenha se dito ou especulado quase tudo sobre a vida, e ou, carreira (artística) de Bob Dylan. Sobre os tempos reclusos, guerras conjugais, problemas com drogas, problemas com público, canções, interpretações falhas e também boas interpretações de sua obra. Mas acho que acima de qualquer pesquisa que se faça, acima de qualquer teoria, interpretação acadêmica, conversa de bar; está aquela sensação agradável (ou não) de ouvir uma canção, um suspiro que preenche a gaita, o toque dos dedos sujos na guitarra, ou no violão acústico, enfim, a sensação quase sempre única de ouvir algum trabalho do Dylan. E isso quer dizer que não importa o que o crítico disse sobre o disco, o que os fãs falam sobre a música ou que história ela guarda consigo, o que importa é o sentimento que eu sentirei quando os primeiros acordes soarem.



         Não existe nenhum deus, nenhum herói, existe um cara compenetrado em escrever suas canções para desafiar o mundo, os críticos e - incrívelmente - os fãs. Toda interpretação que se faz, e isso não se vale apenas para as músicas do Dylan, é só metade do que a música representa, a outra metade não pode ser escrita, porque ela só se nota quando transborda pelo nosso corpo, seja em lágrimas ou em urros de raiva. Assim como as canções tribais, as sinfonias das metrópoles, as canções de Dylan simplesmente existem porque deveriam existir. Aquilo é um conjunto, Dylan traduz o asfalto quente, o óleo diesel, o canto do pássaro em retirada, a fumaça dos cigarros... e como interpretar uma coisa dessas? Só nos resta sentir e o que tornará isso mais interessante é que cada um sentirá da sua maneira, conforme ele vê ou sente o asfalto, os pássaros e os cigarros. As teorias, as conversas, as interpretações, são todas tentativas de explicar esse sentimento, não as julgo erradas, eu sempre que possível faço isso, é até um exercício para entender melhor estes sentimentos. Mas the answer is blowing in the wind, e o vento já passou, a gente só olha pelo retorvisor e sente um vazio no peito. Por isso, fumar um cigarro olhando o disco se movimentar na vitrola, calmamente junto com a melodia, é igual (ou melhor), que tragar aceleradamente em uma mesa de bar, atormentado por aditivos noturnos tentando conversar um outro que "Desire" é melhor que "Highway 61". São tentativas, são interpretações, pessoais, interpessoais, chapadas, ordenadas; são sentimentos, são movimentos internos. É apenas uma canção, um som dançando em nossos ouvidos, mudando gerações, fazendo pessoas entrarem ou sairem do buraco. Este é Bob Dylan.



         Mas nessa confusão toda de sentimentos, de busca por explicação ou de tentar se aproximar do cara, acredito que uma coisa está certa: Bob Dylan traduz a metáfora da vida. Assim como outros artistas também o fazem muito bem (Julio Reny, no Brasil, Johnny Cash lá fora...), assim como outras formas artísticas também fazem, assim como o próprio futebol representa uma metáfora da vida, nos campos tortuosos e sujos de várzea onde alguns talentosos se sobressaem aos esforçados e nobres zagueiros. A metáfora é essa, a vida não é fácil, não é um gramado verde limpo e liso, é um campo esburacado, com sinais de uma guerra, é a guerra vista do front. E o cara traduz isso, o cara saca essa metáfora e amplifica a guitarra pra fazer isso, ou simplesmente senta com um violão acústico e uma harmônica. As mudanças de estilos, as trocas de sonoridades, são adaptações, adaptações que sua alma faz ao mundo que engole asfalto lá fora. Não se muda o mundo com uma canção, então não há o que insistir no mesmo erro. A metáfora está na nossa frente o dia todo, nos metrôs lotados, nos ônibus pegando fogo, e alguém precisa armazenar isso nas nossas telas da vida, alguém precisa botar a cara a tapa. Ser o Judas e ser o Cristo, ao mesmo tempo.
Cristo ou Judas? Ele ainda te espera à sombra, para uma cerveja e cigarros...

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Como trabalhei esta tarde! Acendi um cigarro e entre os meus dedos vi a fumaça subir cansada até o céu, tocando as nuvens. Me senti forçado a tomar uma cerveja e num bar qualquer e me sentei. Fui ficando alto, deixando as os problemas lá em baixo, me desprendendo de todo o mal, todo o cansaço, toda baderna, confusão do dia-a-dia. Mas no fim, retornei ao chão, paguei a conta e chacoalhei num ônibus até minha casa, ainda comprei uns cacetinhos e duas latinhas para a janta... pensando no outro dia de trabalho.

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

O futebol não popularizado no Brasil e Grêmio, a mística deste time

Notem as bandeiras uruguaias junto às gremistas ao fundo de De León e a Taça
    



             Há um tipo de futebol diferente deste popularizado aqui no Brasil e mais especificamente em países europeus. É diferente daquele futebol-arte protagonizado por clubes como Santos, São Paulo, Barcelona, Real Madrid e claro, o Sport Club Internacional, entre outros que não vale ficar citando aqui. Este futebol, que contraria a razão do espetáculo, é considerado desleal, sujo e o mais intrigante, místico. Desleal e sujo é o que entende-se pelo jogo forte, de marcação, em que o drible é o artifício do atacante para fugir das loucas pernas fortes do zagueiro, nada mais além disso. É o futebol-raça, que não disperdiça bolas paradas, jogadas aereas e tem como base sempre a força de seus jogadores, sempre enfurecidos que jogam como bufalos em campo. Já a mística, bom, isto é o mais impressionante. Torcidas enlouquecidas por seus times que não parar de apoiar seu time um minuto se quer, resultados inesperados, títulos impossíveis, jogadores quase sempre ditos como "medianos", dificilmente estes times têm em seu plantel jogadores "estrelas" ou ditos melhores do campeonato. A esta mística valem-se histórias extraordinárias de superação em campo, histórias que os levam a outro patamar de clube: os copeiros. Clubes de histórias inigualáveis, sempre com milagres em seu passado, sempre com decisões nervosas, títulos ganhos no último minuto, raça, sangue, força, dedicação. Amor a camisa. Poucos clubes ainda hoje dispertam em seus jogadores este sentimento, de amor a camisa, verdadeira entrega ao clube. Quando nos referimos a estes clubes estamos falando diretamente com os sulamericanos, e mais especificamente os uruguaios, argentinos e o único cisplatino-gaúcho, o time do Grêmio. Lotados de mística e história estão Boca Juniors, Racing, Independiente, River Plate, Estudiantes e os insuperáveis uruguaios que com apenas 3,3 milhões de habitantes e dois times grandes conseguem somar 8 títulos da Copa Libertadores da América, torneio mais importante do continente. Os dois clubes são Nacional e Peñarol.  No Brasil, o único clube que consegue manter esta tradição de mística, é aquele que se situa no estado mais próximo do Uruguai, o Grêmio Foot-ball Porto Alegrense, e não o Sport Club Internacional, seu rival. O porquê deste clube não fazer parte do seleto grupo de copeiros que mantém a mística é justamente o fato de não praticar o mesmo futebol dos demais, e ter como base o futebol-arte que chega até a ser mal visto por muitos.
 
       Falando então mais especificamente do Grêmio, este único clube brasileiro com mística e tradição de uruguaio, existem fatos que só acontecem com este time e é isto que reforça sua mística, é isso que o engrandece. Seu valor não está em patrimônio, não está em estrelas, o valor do Grêmio está nos títulos conquistados, nas históricas batalhas dentro de campo, são estes fatores que criaram o apelido mais apropriados de todos para um clube, Imortal Tricolar. Há ainda aqueles que o chamam de Tricolor dos Pampas, Tricolor Gaúcho... sempre fazendo referencia à sua estratégica localização geográfica ou ao título de imortal conquistado ao longo dos anos. Há coisas que só acontecem com o Grêmio, nunca vi fatos surreais acontecerem com outros clubes de futebol. A paixão de sua torcida desperta inveja nos outros torcedores e o centro do país - especialmente influenciado pela mídia - mantém um sentimento de ódio contra o Imortal. Incontáveis são as vezes em que os comentários esportivos, após mais uma vitória do Grêmio, dizem que o resultado foi injusto, que houve gols irregulares, faltas excessivas e que o adversário deveria ter ganho por "n" motivos. Não podemos reclamar, eles estão acostumados com outro tipo de futebol, o Grêmio e sua torcida estão acostumado a jogos heróicos, batalhas sofridas e vitórias que eles chamam "desonrosas". Todos muito bem sabem que não importa se a vitória foi por um, dois, três ou quatro gols de diferença, muito menos se o gol foi impedido, teve falta, com a mão e aos 47 do segundo tempo. O que importa é a vitória no final e estes são fatores que dão emoção ao jogo, que tornam a partida única e, aí que ela entra, criam a mística em torno de uma camiseta de clube, que no próximo jogo será respeitada pelo seu adversário.

       Muitas foram as façanhas que ajudaram o Grêmio a criar esta história de mística e força, mas algumas merecem destaque. Teve um jogo, a mais de dez anos atrás, entre duas grandes forças do futebol brasileiro, Grêmio e Palmeiras, nas quartas de finais da Copa Libertadores da América. O primeiro jogo foi na capital gaúcha em uma noite de inverno, no dia 26 de julho. O Grêmio contava com um elenco incomparável, colocado ainda hoje por muitos como um dos melhores elencos do Grêmio de toda sua história - Danrlei, o guerreiro que mais conquistou títulos pelo Imortal, sempre um lutador, que não tinha medo dos adversários; Arce, Rivarola, Scheidt, Roger, Adílson, Dinho, o que falar dele? Volante de contenção, talvez a personificação da raga gremista, batia até na sombra dos atacantes, Goiano, expulso em vários jogos da Libertadores, Arílson, Carlos Miguel e uma das duplas de ataque mais positivas, Paulo Nunes  e Jardel  - mas sem nenhuma estrela em campo. O Palmeiras contava com nomes como Cafu e Rivaldo. Pois logo no início o jogo ficou nervoso, o Olímpico Monumental pressentia que seria um dos jogos mais marcante da sua história e tremia junto da inseparével torcida. O resultado final foi 5x0 para o Grêmio contra um Palmeiras abalado pelas expulsões e brigas que aconteceram dentro e fora de campo. Rivaldo e Válber foram expulsos do lado palmerense e do Grêmio o volante de contenção Dinho foi expulso e ainda deu um chute na cabeça de Válber. Darnlei comprou a briga e também saiu batendo. A confusão se espalhou para a torcida e foi preciso a polícia agir. Logo que recomeça o jogo o Palmeiras parece perdido em campo e o Grêmio termina a fatura com 3 gols do centroavante Jardel. Para o jogo de volta, que seria em São Paulo o jogo parecia ganho, impossível de ser revertido. Poderia o Palmeiras fazer cinco gols e levar para os penaltis? Sim, poderia. Como disse, certas coisas só acontecem com o Grêmio e o Palmeiras fez os cinco gols necessários. Mas o Grêmio veio a campo com seu segundo uniforme, uma camisa azul celeste, calção preto e meias pretas, uniforme igual o dos irmãos uruguaios, talvez isto tenha ajudado, talvez isto tenha feito o milagre, e por obra do destino ou por qualquer outra razão desta mística que cerca essa camisa, Jardel faz um gol sofrido com a barriga e deixa o marcador final em 5x1 para o Palmeiras e classificando o Grêmio para a próxima fase da Copa Libertadores da América. Depois deste jogo não precisa dizer mais nada, o Grêmio foi campeão pela segunda vez do maior torneio do continente. A final havia sido aquela na verdade. Na revista Placar daquele ano, uma edição especial foi dada ao Grêmio e em uma página estava a seguinte declaração de Paulo Nunes:

       "Quem é medíocre? Chegamos as finais de todos os campeonatos que dísputamos!" Esbravejou o atacante contra as críticas que pintam o Grêmio como um timinho"

       Pois querendo ou não, mal ou bem, o timinho está sempre as cabeças, sempre chegando nas finais.
      
       Talvez o jogo mais emblemático da história deste clube seja Grêmio x Náutico. Este sim um time pequeno da segunda divisão do campeonato nacional e que, teoricamente não faz frente ao Grêmio. Teoricamente. Muitos apontam este jogo como um marco negro na história do Grêmio, apenas porque em 2004 o time caiu para a segunda divisão. Mas tal fato reforçou o amor do torcedor pelo seu clube, não se via um torcedor escondendo sua dor naquelas semanas finais do campeonato, e assim que se iniciou a segunda divisão, o Grêmio com toda sua história se mostrou humilde para enfrentar times pequenos em cidades do interior com estádios horríveis. Mas este é o Grêmio, não escolhe adversários e enfrenta as batalhas que vier, é sempre digno da vitória e quanto mais emocionante for a batalha melhor é o resultado. Mas há os amantes do futebol que classificam o jogo Grêmio x Náutico como um dos melhores do mundo. Sim, da história de todos os jogos de futebol do mundo - que se tem notícia, porque garanto que pelos gramados irregulares das várzeas espalhadas por aí, inúmeras batalhas milagrosas já foram travadas. Fato é que o Grêmio veio a campo carregando toda sua história nas costas, em um estádio hostil e lotado - mesmo que pequeno - por torcedores fanáticos. A partida começa e os resultados paralelos obrigam o Grêmio a vencer a partida, mas o time do Náutico que também tinha chances de subir para a primeira divisão também tem a mesma vontade de ganhar. Bom, talvez não a mesma vontade, mas era grande sim a vontade de ganhar. O jogo segue nervoso, disputado, com chegadas fortes dos volantes dos dois times, até que então um pênalti é marcado contra a meta tricolor, que era defendida por Gallato. Desespero? Sim, mas era só o começo. Para alívio tricolor a bola é chutada na trave, mas ainda continua a pressão do Náutico. Mas o ápice do desespero ainda estava por vir, o Grêmio na segunda divisão jogando contra um time pequeno via o tempo passar lentamente naquela tarde de 26 de novembro de 2005, e viu ainda o arbrito marcar outro penalti contra o Grêmio. Não se poedia imaginar que eles perdessem outro penalti, por mais otimista que se tentasse ser, mas o que as vezes a gente esquece é que a questão não é ser otimista, é ter fé na mística do Grêmio, isto está além das questões de otimiso ou pessimismo. E para ampliar esse "pequeno detalhe" na confusão o Grêmio tem 4 (QUATRO) jogadores expulsos, ficando com apenas 6 jogadores na linha mais o goleiro, que tinha agora um penalti para defender. A confusão foi grande, dirigentes gremistas desceram ao gramado, os jogadres foram para cima do arbrito e a polícia entrou em campo e até mesmo agrediu alguns jogadores gremistas que ali estavam. Mas o penalti haveria de ser cobrado e não adiantava o quanto os jogadres tentassem retardar a cobrança. 25 minutos se passaram e o penalti seria cobrado. Como o Grêmio iria vencer com 7 jogadores em campos, um penalti contra prestes a ser batido e um estádio inteiro já comemorando o título. Antes da hora. O penalti foi batido e milagrosamente foi para nas mãos de Galato. Inexplicável, inacreditável, e a bola ainda saltou para longe do gol dando tempo para os jogadores correrem e abraçarem o goleiro agora herói. Na sequencia, a mística se fez valer, o inexplicável aconteceu. O jogador Anderson, um garoto ainda, sofre uma falta perto do meio campo enquanto ia avançando em direção a meta do Náutico. Os jogadores ainda anestesiados pelo penalti perdido não prestam atenção na jogada. A falta é rapidamente cobrada e Anderson se desloca rapidamente em direção a area... aquela sensação não pode ser explicada, o jogador seguia driblando seus marcadores e visava o gol, seria gol, o Grêmio iria ganhar a partida, seria campeão! E foi isto que aconteceu. Anderson fez o gol, consagrou-se como herói tricolor, o Grêmio foi campeão da honrosa série b, retornou a primeira divisão e o Anderson foi vendido ao futebol inglês para se tornar um dos executadores do futebol-arte. Irônia do destino? Sim, e o Grêmio parece sempre colecionar estes fatos.

          Para deixar claro que esta mística não é algo passageiro, e sim algo que acompanha e sempre acompanhará o Grêmio, estes fatos heróicos e emblemáticos continuam acontecendo. Até mesmo quando o time não joga. A prova de que o time merece o título de imortal aconteceu neste campeonato brasileiro. O time era o penúltimo colocado, vivia o inferno e sentia o medo de cair novamente para a segunda divisão, se falava em milagre, "só um milagre tira o Grêmio dessa situação". Aconteceu. Foi contratado Renato Gaúcho, um treinador que leva nas costas o peso de maior ídolo da torcida, responsável pelos gols do título mundial, da jogada emblemática contra o copeiro Peñarol na final da Libertadores de 83. Pois ele tem como primeiro jogo uma decisão. Grêmio x Goiás pela copa Sulamericana. Renato mal tinha pisado em solo gaúcho, nem conhecia o time, mas mesmo assim foi para a beira do gramado tentar alcançar a vitória. Acabou perdendo, mas aquela derrotada não era dele, era do ex-técnico Silas. O Grêmio abandonou a competição e avançou no campeonato nacional, o Goiás abandonou o campeonato nacional e avançou na competição, acabou rebaixado para a série b mas chegou a final da Copa Sulamericana. Por mérito de Renato Gaúcho, o Grêmio alcançou a quarta colocação no final do campeonato nacional, e aquele time que estava prestes a ser rebaixado e que ninguém acreditava desbancou grandes forças do futebol brasileiro e chegou a quarta colocação, que dava lugar a Taça Libertadores. Dava, porque na última hora a CONMEBOL, federação que organiza a Taça, afirmou que só se classificaria para a Libertadores o campeão da Copa do Brasil, o primeiro colocado no campeonato naciona, o segundo, terceiro e o quarto, caso não haja um campeão brasileiro na Copa Sulamericana. E veja só, por ironia do destino o Goiás estava na final, o mesmo clube que eliminou o Grêmio na primeira fase e agora enfrentava o Independiente, o clube que anos atrás ganhou a final do Grêmio na Taça Libertadores, em 1984, quando o Grêmio seria bi-campeão. Por ironia do destino o Grêmio teria de torcer para o clube que tirou seu título em 1984. A mídia brasileira dizia que o Grêmio teria a "difícil" missão de torcer para um time argentino, estava claramente entendido que eles não sabiam nada sobre a indentificação da torcida gremista com a Argentina. Pois enfim a decisão começou, seriam dois jogos, aqui no Brasil primeiro e depois lá na Argentina. Os Diablos Rojos começaram perdendo por 2x0 e muitos garantiram: "O Grêmio não vai para a Libertadores, o título fica com o Goiás, rebaixado para a 2° Divisão". O maior campeão de Libertadores (7 Copas) estava caindo para um time rebaixado, também pudera, tinha um time fraquíssimo com poucos jogadores que honravam a camisa que vestiam. O Grêmio tinha de torcer para um inimigo que tirou seu título e mais difícil ainda era reconhecer que o Goiás, mesmo rebaixado e contando com apenas UM jogador bom em seu elenco (Rafael Moura), tinha melhor time. Mas a partida na Argentina foi diferente. Jogar em um estádio chamado Libertadores de América não é para qualquer um e o Goiás sentiu. A torcida gremista em Porto Alegre estava ansiosa e atenta, maravilhada com a torcida barra brava de Los Diablos Rojos! Olhos apavorados dos jogadores goianos olhavam para todos os lados da arquibancada, tentando entender o que estava acontecendo ali. Verdade é que o Goiás não tem história para fazer frente contra um time deste tamanho, por mais que a situação fosse totalmente a favor deles. Mas o jogo começa e o Independiente faz jus a sua história. Veste seu mais tradicional uniforme azul escuro com o símbolo antigo, como quem diz para seu adversário: "Olhe aqui toda minha história!". E o Goiás olhou, resolveu encarar mas tomou 3x1 no primeiro tempo. Somando dava 3x3 (2x0 para o Goiás no Brasil e 3x1 para o Independiente na Argentina) e este resultado se persistiu durante toda etapa complementar e toda prorrogação. A decisão ficaria nos penaltis. Mas o que se viu no final do jogo foi um Independiente cansado, a torcida que os conduzia e os animava, mas as pernas estavam pesadas e eles queriam que aquilo acabasse logo. Para desespero gremista o Goiás jogava com todo gás, afim de ganhar a partida. Em Porto Alegre a madrugada avançava ameaçadora, não merecia o Grêmio depois de todo este ano ser premiado com a mística tricolor? Não merecia este prêmio o Imortal dos Pampas? Sim, merecia. E sentindo o peso do estádio, chutou na trave um jogador goiano e depois, apenas com a experiencia um zagueiro o Independiente alcançou a redenção e se sagrou Campeão da Copa Sulamericana 2010 e graciou o Grêmio com uma vaga para a Libertadores 2011. Ainda assim, há os que dizem que o Grêmio esta comemorando uma simples vaga para a Libertadores como se fosse um título, só que mais uma vez eles não entendem que o que vale é a emoção da conquista. Mesmo não jogando o Grêmio conquistou algo, somou pontos a sua tradição, a sua camisa esta mais pesada agora. E se vocês não entendem que este time só pensa em Libertadores, não o critiquem, pois este é o tipo de futebol que o Grêmio gosta. Futebol raça, este que não é popularizado aqui no Brasil...
     

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

JAPAN WARS ON U.S AND BRITAIN!

Capa do jornal americano New York Times de 8 de dezembro de 1941 - II Guerra Mundial
       

          8 de dezembro de 1941, exatamente 69 anos atrás o Japão atacava a base norte-americana de Pearl Harbor no Hawaii, e entraria para a história, ganharia filmes, faria heróis - e matava gente. Essa é a razão da guerra, seja em qualquer lugar, Rio de Janeiro, Haiti, Afeganistação, Iraque, é só a morte. O inferno vai lotando de ditadores, de traidores, enquanto aqui o terror corre solto pelas ruas. Essa é nossa liberdade, poder declarar guerra a quem quiser, pelo simples motivo de termos poder - poder?.
       Pois então, 69 anos atrás morriam norte-americanos em uma manhã de domingo, por um ataque surpresa janponês. Agora as crianças estavam ficando órfãs, as mães de luto, as esposas viúvas e os amigos sozinhos. A lua brilharia bucólica para os sobreviventes com membros arrancados naquela noite, e o sol do domingo foi manchado de sangue. Os aviões japoneses logo retornariam para sua terra e esperariam o contra ataque. Esta é a lógica. Familias japonesas também seriam decepadas de seus pais e medalhas de honra também seriam creditadas aos que retornarem em condição de receber uma.
       Portanto, faça uma guerra hoje; tenha uma bomba atômica na mão para qualquer emergência e se alguém sobreviver - essa não! - de uma medalha de consolo; explique que a pátria está muito grata de sua presença. A economia do seu pais agradecerá uma façanha heróica, e vocês poderãm escravizar povos até então desconhecidos. Sejam os senhores da guerra, vocês tem o poder de derrubar sangue, vocês mancham a terra com esta glória empodrecida e tramitam nas linhas de frente com seus zumbis patrióticos. Se torne a escória da humanidade, se torne facista, beba pelas pessoas afogadas em um oceano de sal, os trabalhadores que não verão a luz do dia no próximo amanhecer e todo o sangue inocente derramado por tuas mãos. Essa é a verdade e a lógica dos senhores da guerra, este é o hino desalmado dos capitães de guerrilha.
       Metralhadoras, canhões, pistolas, na verdade você sabe que nada poderá silenciar um pensamento. Vocês perderão essa guerra, e será por desistência. Vocês acham que honram uma imagem santa derrubando todo este sangue? Acham que a história irá lembrar para sempre de vocês? Os ditadores irão comer seus rins no almoço e os facistas serão vocês, os demônios serão expurgados da linha de frente e o pelotão ganhará ordem de descanço permanente - nas terras do inferno. Ah senhores da guerra, peguem suas espadas santificadas pela destruição e enfiem em vossos peitos honóricos, e parem de destruir escolas, igrejas e templos sagrados.
       1941 é hoje, 1941 é uma lembrança. Bem vindo a segunda guerra mundial. 

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Hotel Solar

           Lá estão as musas tristes que desfilam dentro de seus vestidos apertados e seus sapatos de salto alto, de um lado para o outro sob a calçada suja da frente do Hotel Solar. São as criaturas da noite, da solidão e do engano que por ali habitam respirando o ar sujo, mal-cheiroso e indecente. As coisas acontecetem ali de qualquer jeito, a qualquer hora, existem vidas em jogos em qualquer momento no Hotel Solar, e você não deve se preocupar, a menos que tenha uma reserva para terça-feira e em seu quarto um defunto gelado estiver escondido de baixo da cama. Há uma música que todos ouvem no Hotel Solar, vindo das maçanetas emperradas e das escadas entupidas de cupim. Mas de dia uma névoadisfarçada paira sobre aquele ambiente, e sob sua marquise as pessoas passam sem saber do que se trata, mas carregam toda dor e todo medo dos que entram no hotel. Os ônibus, os carros, eles queimam o ar quente que entra pelas janelas e cai sobre as camas, cheias de ácaro. E no fim de tarde as musas tristes disputam lugar entre os traficantes de carne, entre os vendedores de droga, entre os enfiadores de qualquer-coisa no corpo, os seguranças de boates, os transeuntes cristãos e os religiosos de porra-nenhuma.
         Mas há algo que os leva até o Hotel Solar, no seu peito uma dor, uma desilusão que amarga devagar durante a madrugada fria, ou o dia quente. Uma gota de esperança que só pode ser vista da janela do Hotel Solar é a desculpa dos amantes, dos viciados, das prostituas, dos perdidos, para frequentarem o local. Um letreiro em neon que pisca lentamente avisa sobre a magia do local, e apenas os que não tem nada a perder tem a sensibilidade de sacar. Há luz no Hotel Solar, o sol brilha apontando para lá e a lua ilumina todas as noites, junto com as estrelas que guiam cada sonho absurdo deste hotel.
      Ao longe vejo mais uma alma perdida pagando a taxa da diária... e nos confins assustadores da solidão, sua paz retorna fresca, afim de mais uma dose de aventura. Movido pelo medo.

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

The Jazz of the Beat Generation for Download

         New York Cirty, década de 40. Dentro dos clubes enfumaçados e escuros, pequenos grupos tocavam um Jazz de compasso diferente, a intenção da música não era a dança, e sim a apreciação. O ritmo era frenético, comparado talvez apenas com a velocidade com que cigarros eram acesos e apagados. Era uma poesia, um estilo de vida que estava nascendo nas frias ruas novaiorquinas. Àquilo chamaram Bebop, fazendo alusão ao som dos martelos batendo em ferro bruto, como nas construções da então vertical New York City.
        Tocando em pequenos grupos, não mais em Big Band's ou Traditional Jazz Band's, estava Charlie Parker e Dizzy Gillespie, nesses abafados clubes que surgiam aos montes pelas ruas de New York. É nessa cena em que surge um grupo de escritores bastante restrito, eles vinham de outras terras americanas, como Denver, e vagabundeavam por aquelas ruas sujas, procurando algum lugar para uma diversão barata, uma conversa, escrever algo. Acabavam caindo na 52nd Street, em Manhattan - coração da globalização, do capital, dos sonhos da américa - e entrando nestes lugares sujos. Eles eram os Beats, os escritores da Geração Perdida, a Lost Generation, os caras sujos e sem dinheiro que passam pela sua janela carregando os problemas do mundo na mochila.
         Os Beats passaram a admirar não só a música Bebop, mas o way of life dos seus executadores, passando até a utilizar o mesmo tipo de drogas que eles - no caso as mais populares benzedrina e heroína - além da maconha já utilizada por influência da vivência nas ruas. Encorporam então o estilo único e rebelde daquela música em sua escrita, usando o improviso e a velocidade de imagens, a rápida absorção de pensamento - tudo isso herdado deste ritmo que nascia em New York.

          Para ilustrar estas palavras e aguçar os ouvidos, disponibilizo o link para download do album: Jazz of the Bat Generation, que se trata de uma coletanea dos principais nomes da época - incluindo os fundadores - e algumas passagens em que Kerouac fala sobre o nascimento do Bepo e a ligação com o Beat.


Jazz of the Beat Generation - Download Link
Capa:












Track List


1 - Beat Generation - Jack Kerouac
2 - Gasser - Roy Eldridge
3 - Real Crazy Cool - Big Jay McNeely
4 - Hey! Ba-Ba-Re-Bop - Lionel Hampton
5 - In a Little Spanish Town - Lester Young
6 - Fantasy: The Early History of Bop [Section 1] - Jack Kerouac
7 - Salt Peanuts - Dizzy Gillespie
8 - Scrapple from the Apple - Charlie Parker
9 - Fantasy: The Early History of Bop [Section 2] - Jack Kerouac
10 - Half Nelson - Miles Davis
11 - Sorry, Wrong Rhumba - George Shearing
12 - Fantasy: The Early History of Bop [Section 3] - Jack Kerouac
13 - Slim's Jam - Slim Gaillard
14 - Fantasy: The Early History of Bop [Section 4] - Jack Kerouac
15 - I Only Have Eyes for You - Billy Eckstine
16 - Hunt - Dexter Gordon, Wardell Gray
17 - Fantasy: The Early History of Bop [Section 5] - Jack Kerouac
18 - Hackensack - Thelonious Monk
19 - Subconscious-Lee - Lennie Tristano
20 - Stella by Starlight - Stan Getz
21 -  Line for Lyons - Gerry Mulligan Quarte
22 - Nutty - Thelonious Monk

link para download:

http://rapidshare.com/#!download|340l35|109163421|Jazz_of_The_Beat_Generation.rar|63097



Links complementares:

Blog Jazz e Rock para quem gostou do som:
http://www.jazzerock.com/2008/04/jazz-of-beat-generation.html

Site americano Literary Kicks muito bom para quem souber ler em inglês e quiser ler boas matérias, aqui o link direto para uma matéria sobre o Bebop e o Beat:
http://www.jazzerock.com/2008/04/jazz-of-beat-generation.html

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Let it Beatnik

        Let it be - Deixe ser, estar - os Beatles falavam na década de 60 e era o que suas músicas passavam e refletiam a mentalidade da época. Mas de TODA aquela geração? Era isso que todos jovens pensavam na década de 60? Apenas aquela onda "paz e amor" - que nunca existiu? Certamente não. Mas era o que a grande maioria pensava, ou achava que estava pensando. Certamente era o que vendia, disto não há controversias. Deixe estar então, as coisas devem ser livres, faça o que quiseres, coisas boas florescerão, o amor deve ser livre, não se preocupe tanto - fume um baseado. Pois é esta a essência de algo que se difundiu muito nos anos 60 graças a uma onda muito forte de contracultura no passado, uma onda revoltada, uma onda agressiva - sim, bastante diferente dessa fórmula "paz e amor". Era o movimento Beat, mas isto já será retomado. Acontece que na mesma época uma banda formada por garotos nem tão "paz e amor" assim, resolveu brincar com a expressão. Foi lançado o disco Let it Bleed - Deixe sangrar - pelos Rolling Stones. Com um tom sarcástico, a expressão, e o disco em si, retratava uma geração perdida, falava daqueles que se deram mal, entraram em brigas, bad trip's, perderam a familia. Afinal, para os próprios Beatles, nem tudo era flores. Mas sem perceber, as duas bandas criaram a perfeita analogia dos anos 60 - nem tudo era paz e amor, havia sim maldade, sangue, naquela geração.
      E era sobre isso que aquele antigo e esquecido movimento falava, os Beats sempre disseram que nem tudo era flor, que na verdade, quase nada era flor. Sempre foi difícil a vida, por mais que se consiga sorrir, é sempre com algum esforço, com algum sacrifício. Razão esta porque talvez muito dos beatniks - principalmente Jack Kerouac que, reza a lenda, no fim da vida praguejava sempre que via um cabeludo Hippie com sua mochila nas costas - detestarem os Hippies e o próprio movimento Hippie, que foi na verdade uma vertente do Beat e que acabou acabando com ele mesmo. 
      Mas agora, anos depois destas gerações, eis que me deparo com uma outra analogia - uma sequencia talvez daquela "brincadeira" das duas bandas nos anos 60 - de sentido parecido, e é na internet. Falo do blog, Let it Beatnik que encontrei não faz muito mas já me vislumbrei com a quantidade de textos interessantes e a qualidade das informações, artigos e textos sobre os beats, mais especificamente Jack Kerouac. É uma ótima fonte de pesquisa para quem curte o assunto e até mesmo para quem é leigo e está interessado em saber mais. Tem dicas de livros, comentários sobre outros autores, e é escrito da maneira mais beat possível. Por isso, faço a propagando aqui deste blog que brinca, de certa forma, com aquele pessoal dos anos 60. Let it beatnik, coloque sua mochila nas costas e vá ver o mundo! 

>
Link:  http://jackerouac.wordpress.com/

> O blog é mantido e todos os textos são escritos por João Paulo de Oliveira, aqui um trecho que exemplifica muito bem o conteúdo do site. Além de ser muito bem escrito: 

Kerouac Vs O Beat

Eu não sou Jack Kerouac
Eu não sou william Borroughs
eu não sou Allen Ginsberg

Eu sou o espírito do beat
sou o pó que se acumula
o indisível que fala
Que corta, corteja, revela

sou o filho da puta que não nasceu
a viagem que ainda não foi feita
a fome que ainda virá

Eu sou nós
Sou aqueles que não têm nome
Que correm como notas em uma caixa registradora
que se escondem pelos muros cinzas da cidade

Sou o rio que passa e leva uma geração
Sou a jangada que leva o buda
a lança que jorra o grito da rendenção
o arco inalcansável
O caminho inatingível

….qqq….

Eu já não sei se falo de amor ou de medo, só sei que “falo”.
Meus pés estão longes/próximos desse chão/céu,
mas basta ser covarde/hipócrita/sensato/sincero para que tudo
possa dar certo/errado/imprevisível!!!

Beat é anagrama de BETA! 

por João Paulo de Oliveira em  http://jackerouac.wordpress.com/2010/11/21/kerouac-vs-o-beat/

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Jack Kerouac, o cara que popularizou toda essa onda...

terça-feira, 23 de novembro de 2010

Downtown... a cidade decaída... e eu que só queria um endereço

          Eu escrevi uma carta para um romance antigo, defasado, triste, abafado. A carta retornou para minhas mãos com um selo de devolução. Ela mudou o endereço e não me avisou, ou a cidade cresceu e a rua dela mudou de nome. Nas ruas de Porto Alegre a evolução tem sido assim, hoje eu caminhei desordenado pelas calçadas tristes, pelas alamedas cruéis e me senti um humano sem coração. As crianças me pedem esmolas, os cegos vendem bilhetes da loteria - um deles estará premiado, a sorte espera por você - um fiél enlouquecido tenta lhe convencer. Essa é a rotina dessa cidade, os mendigos não pedem passagem, eles se instalam nas calçadas, as lojas se adaptam, as arvores se adaptam. Não há quem resista ao cheiro dos churrasquinhos feito com podridão, não há quem não acenda um cigarro pra disfarçar a solidão. Lá vai outro jovem vender a alma para um traficante, são doenças antigas, as doenças dessa vida. Todos morrem um pouco a cada dia, e porque as crianças orfãs de rua despejam seus olhares dolorosos dentro de nós? Por acaso somos melhores do que eles? Não sentimos dor ou abandono a cada meia noite rompida? Eu estava com a carta na mão, procurando me encontrar, e ao meu redor um circo de insanidades pegava fogo. A realidade poderia assustar até um cego, porque o cego também vê, é você que não vê. Preocupado com os signos da cidade, com os códigos da evolução, com a realidade, enquanto a peculiaridade se perde através dos botões, através dos pregos, das maçanetas. Enquanto o infinito atravessa na sua frente, você se preocupa com o sinal de trânsito, com a linguagem dos carros e você morre, porque morto estará aquele que não sabe viver. Toda vez que você sentir a dor você vai chorar, e achando que isso vai ajudar vai tomar uma garrafa de vodca. Vodca não salva ninguém, eu bem que sei. E aquela maldita lembrança na minha cabeça. Eu não sabia porque a carta tinha voltado, eu agora só caminhava pelo centro, downtonw, cidade decaída. Ando entre anjos e demônios, os demônios me atacam, os anjos apenas correm de mim. Você vê nos olhos dos policiais o medo pelo caos, de um maníaco com uma bomba estourando as paredes de concreto que ele tanto cuida. As cabeças não-pensantes das pessoas que ele tanto respeita. Todas mortas antes mesmo de acionar o botão da bomba. Mas eu estava apenas atrás de um endereço. Você encontra indíos longe de suas casas, vendendo bugigangas, intrumentos de percussão, para alimentar seus filhos barrigudos, doentes, insensíveis e de olhares frios. O endereço pode ser atrás de um deles. A boca do universo começa no bueiro e termina na sala de espera de um grande consultório burguês. A cidade tem um mesmo tom, o tom do engano, do cinza desbotado. Vocês se perdem toda vez que encontram o endereço certo, eu me perdi muito tempo antes, apenas estou tentando me encontrar. Downtown, cidade decaída. Downtown, cidade das ilusões. O centro urbano, histórico, habitado por mendigos, indíos, feirantes, ambulantes, vendedores de pirataria, apenas humilhação para a espécie, uma espécie já apodrecida. Eu estava no centro, downtown, cidade decaída, procurando um endereço para enviar a carta. Um amor perdido, esquecido. Uma faca no meu peito. Apenas outra desilusão. Na carta eu escrevia palavras de ódio, eu fingia estar bem. Eu mentia alegria, eu sonhava com facas. Agora estou no centro, estou tentando pular de cima de um prédio. Downtown....

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

O Manto Negro

O manto negro desce a rua
Eu queria que você também o visse
Apareça na janela
O sol ainda não nasceu
E o manto negro está passando
Por de baixo das marquises

Atrase o tempo do relógio
O sol aquecerá um pouco menos
E o homem que vem deslizando na calçada
Vare a rua com seu manto negro
Flutuando em sua cabeça,
Atrás da capa, um chapéu preto

Querida, desligue o ventilador
Estamos dando voltas no seu teto
Porque o manto negro está passando
E devemos ter cuidado
As estrelas estão caindo
E a cidade agora está no universo

Cuidado com as ruas infinitas
Há abismos nas esquinas
Entre em nossa casa interstelar
E devagar nós vamos viajar
Atravessar a quadra,
Pular dentro do mar

O manto negro deslizando no asfalto
Um pedaço do sol iluminando o espaço
O homem misterioso circulando fora de órbita
Como um grande cometa flamejante
Desabrochando pelas nossas ruas
E os amantes dormem abraçados

Deite no parapeito do universo para ver,
As estrelas brilhando fora da sua janela
O manto negro já vai partir, então atrase,
Seu relógio para a hora do anoitecer
Aproveite o universo fervilhando lá fora
O cara estranho está voltado para casa

Venha para a sombra distorcida então
Temos o tempo atrasado do relógio para nascer
Olhar o sol que vem brilhando
Nossas mãos estão tão juntas,
E o manto negro já partiu,
Levando parte da nossa rua

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Que porra é Bob Dylan?

How does it feel to be on your own?

      Aquele ar cigano, de pirata desencarnado, ou de vagabundo sem lar, que atravessa uma cidade com um cigarro na mão, atrás de fogo pra acender e tragar uma fumaça compatível com sua saúde, aquele ar, aquilo, exatamente aquilo é uma incógnita. Eu não quero definir esse ar, não quero encontrar a resposta pra essa pergunta. Isso nem teria como. Mas eu quero me indagar até o fundo da minha alma, quero exercitar os neurônios estrapolados do meu cérebro para tentar entender: que porra é Bob Dylan?
Procurei nas entrelinhas - nas estrelinhas também - embaralhadas do Crhonicles e só encontrei mais rotas sem sentidos, desconexas. Na verdade não gostaria de encontrar a resposta, mas me esforço em raciocinar sobre, talvez se um dia encontrar eu escreva um livro contando. Talvez vire best seller. Mas esse ar cigano, essa imcompreensão é o que compõe a mística desse judeu de ar cansado. E eu sei que aquela voz rouca que lança um uivo de dor, não quer ser ouvida pelo entusista descobridor de mistérios, mas quer lançar perguntas ao ar, quer fazer as situações-problemas aparecerem e desaparecem como um raio. E no final das contas, a gente coloca um disco do Dylan, acende um cigarro e chora ouvindo uma canção sem nem precisar entender que porra ele é.
Essa é a resposta da pergunta? Claro que não. Se fosse tão fácil assim os fazedores de hit's na internet teriam a mesma mística, não? Então vai mais além. Mas vai até onde? Não quero saber, eu só quero mesmo é divagar um pouco sobre essa figura singular. Eu já sei que a resposta está soprando no vento, e que ele leva e traz essa resposta. Eu quero me antenar pra não perder ela de vista, deixar ela sempre a dois palmos da minha percepção. Mas nunca ouvi-la, definitivamente. Manter a incógnita, o mito, a preocupação em descobrir que porra é esse tal de Robert Allen Zimmerman! Dizem que é muito mais que um cantor que escreve e canta poesias retiradas do fuindo das entranhas de um coração partido envelhecido em whiskey doze anos. Dizem que é muito menos que isso, um babaca, uma tarturuga escondida num casco. Mas põe casco né? Casco de cowboy solitário e de cristão renascido.
Acho que ele é o dono do Desire, isso basta. Basta até o café esfriar, e o tempo do outro chegar na mesa. O tempo do cigarro percorrer metade do papel e quase encostar no filtro, fazendo meus dedos recuarem por culpa do calor. É só o tempo de duvidar de quem é Bob Dylan, aí não basta mais. Vira outra coisa, troca de figura. Vira o dono do Bringing it All Back Home. Traidor do Folk. Os Mutantes também trairam a música brasileira, ou não? Essa história de guitarra elétrica já deu o que falar. O negócio, eu acho, é a traição. Dylan traiu a todos, por isso não podemos achar uma explicação. Como responder uma mentira, uma pergunta que não existe? Ele só é. Entendeu a ênfase no "É"? Então, tudo como está e para de se questionar.
Vou tentar não perder o vento de vista, deixar o ar cigano tocar nas minhas narinas e entrar nos meus pulmões. Ouvir a voz rouca praguejar contra a chuva, contra a sala de estar, contra qualquer coisa. Vou apenas me acomodar numa poltrona velha, colocar a mão no queixo e em posição filosófica endagar outra vez - não antes de rir de todo esse texto ridículo: Que porra é Bob Dylan?

Sou a resposta soprando pelo vento

Eu sou a luz, clara e decidida, de um amanhecer
A melodia que você sussurou num sonho
E que te fez parecer leve e infantil

Sou o brilho de fogo da tua retina
E o veneno que aos poucos contamina
Teu corpo já cansado de dormir

O segredo que o oceano esconde
Na escuridão profunda do abismo
Silenciará ao ver quem eu sou
O errante iluminado que nasceu
De um burraco bem mais fundo que o seu

E os cantores enterrados em covas rasas
Nas curvas de uma estrada sinuosa
Cantaram num belo coro a canção
Que censurada, você não vai ouvir
Nos auto-falantes da cidade

E eu sou o nostalgico entardecer
Que você olha da janela do seu quarto
Deslizando ao redor do horizonte

Sou o pedido de misericórdia de um pecador
A faca sem fio, manchada de glória
Do sangue heróico que um dia foi vitória

O segredo que o oceano esconde
Na escuridão profunda do abismo
Silenciará ao ver quem eu sou
O errante iluminado que nasceu
De um burraco bem mais fundo que o seu

E os cantores enterrados em covas rasas
Nas curvas de uma estrada sinuosa
Cantaram num belo coro a canção
Que censurada, você não vai ouvir
Nos auto-falantes da cidade

Ah, eu sou a resposta soprando pelo vento
Sou a resposta navegando pelo vento
Pelo vento dos idiotas...

terça-feira, 20 de julho de 2010

Vida Lascada

Levo uma vida lascada, mas as vezes vou para o spa...
... e depois
volto para a vida lascada.


segunda-feira, 5 de julho de 2010

Uma Soma de Zeros

Você bem sabe que não poderá ganhar, tão pouco chegar entre os primeiros; cada segundo que passa vai ficando para trás e quando pensa que terá vantagem, é ai que se engana e volta para onde tudo começou, ou até mesmo antes disso. Sua única energia é uma esperança vaga, amarga, que flameja dentro de você e não sabe exatamente o porquê dessa chama ainda estar ardendo. Isso faz com que você negue estar derrotado, negue que seja um perdedor e esteja de hora extra num mundo hostil que lhe impõe limites e você aceita. Então para que esta chama se mantenha acesa, é preciso aalgum combustivel, é preciso que você alimente essa esperança ao longo do caminho e você acha que eles também não pensaram nisso? Migalhas de pão marcam o caminho; você poderá voltar para casa; encha sua boca com isso; mantenha-se calado. Essas sobras que você encontra no caminho satisfazem seus desejos, mantém adormecidas suas ambições.
Você vai somando apenas perdas no caminho de volta para casa, e quando nela chega, um zero bem grande o espera. Nada muda, apenas uma soma de zeros; sempre a mesma coisa. Mergulha em seu vazio, cheio de supérfulos e enquanto espera a noite o dia se vai levando qualquer coisa junto, inclusive seu tempo de reagir. Mas está tudo bem, um prato de sopa esfria sobre a mesa e a televisão está ligada, existe ainda diversão por mais três horas. Só que você vai ficando para trás, mas até aonde vale pena estar em primeiro?
Então você se esforça, faz as coisas certas, tem um bom convívio social e está em primeiro, só que esta corrida desleal não leva a lugar algum e você só percebe isso quando perde.

quinta-feira, 10 de junho de 2010

A janela pintada de cinza e você enchendo a cara de vinho

Ela enche a cara com vinho
Viaja dentro do quarto
Eu me sinto sozinho
Com a comida no prato

A janela pintada de cinza
Nossa vida caindo aos pedaços
Tento acordar mas não percebo
O cigarro queimando o dedo

Você as vezes esquece
Porque anda bebendo
Diz que é pra se lembrar
Porque anda sofrendo

As vezes eu quero estar
Sozinho com você
Mas não sei o que falar
Prefiro ver tv

segunda-feira, 12 de abril de 2010

Não Profundo - Uma História de Polpa

1 Não Profundo
1.1 (Nem Tão Profundo)

2. Uísque sem gelo, por favor!




Pode me chamar de Tony Wiliam, Richard Bennedict ou de Marco Santos, tanto faz. Eu não ligo para o nome, e durante essa estória não usarei meu nome, portanto, sinta-se a vontade para me batizar. Fato é que na manhã do dia em que tudo aconteceu, os pássaros cantavam alegremente, as abelhas enfiavam mel nas suas bundas, crianças celebravam a juventude e eu acordava de ressaca e desejava que tudo isso fosse para o inferno. Levantei e a dor de cabeça me surpreendeu: não existia. Bebi duas garrafas de gim ontem a noite e nada de dor de cabeça pela manhã! Pensei que este seria um bom dia, acreditei que estava de bom humor e sai, nem ao menos me importei com minha imagem no espelho. Desci dois jogos de escada e cheguei à rua. Maldito sol ofuscando minha visão, Lorena passou e eu mal pude secar seu lindo corpo! O dia começava a mostrar sua cara. Chequei meus bolsos, encontrei mais do que esperava.. a sorte estava mudando. Mas grande coisa o que a sorte orquestrava para mim, pensei. Tomei um café bem forte do outro lado da rua e comi alguns pedaços de uma torta de maçã muito velha no balcão. Deu 4 e 50 no total. Senti raiva. Sempre tinha raiva quando gastava meu dinheiro antes do meio dia. Ainda restava grana para a gasolina e também para o almoço, mas talvez eu o substituísse por algum trago. Precisava agora era arranjar um carro. Pela parte da manhã era mais fácil ainda descolar um carro, haviam vários mal estacionados ou em lugares pouco movimentados e para mim não havia dificuldade alguma. Olhei um Mercedes dando sopa perto da esquina, mas logo lembrei do alto esquema de segurança que estes carros possuem. Precisava de algo rápido. Um Opala seria perfeito. E lá estava ele me esperando. Na frente de um banco, esperei alguns minutos e o otário saiu da porta do banco, provavelmente com os bolsos cheios de grana, entrou no carro e acelerou. Menos um. Mas não precisei andar muito para ver outro, melhor ainda. Em poucos minutos eu já acelerava para bem longe dali. Rodei até a casa do Edie como de costume, só para saber o que iria rolar naquele dia. Ele não estava, só sua mulher. Resolvi entrar. Mariane de calcinha sentada na sala vendo tv. Tive a primeira ereção da semana. Me convidou para entrar, beleza, agora era comigo e não precisou de muito. Ah, realmente era meu dia de sorte. Logo ela foi abrindo uma cerveja e me alcançando. Eu babava olhando para suas pernas! Perguntei que horas Edie iria voltar, ela disse que só a tarde. Falei, “Ok meu bem, temos bastante tempo!”. Por alguns instantes ela segurou, mas depois abriu as pernas para mim. Ela gemia e gritava como uma cadela, pedia mais e eu estava ficando meio cansado já... não sei se pela minha sorte ou azar ela parou, do nada! “O que foi?”, “Acho que é o filho da puta do Edie!”. Mal terminou de falar aquele gordo abre a porta e me pega enfiado dentro da sua mulher. Se ele não estivesse com tanta raiva seria engraçado ver seu rosto. Apanhei como nunca havia apanhado, pelo menos não me lembrava. A sorte era que ele estava desarmado. A sorte novamente do meu lado? Não, ele me cravou uma faca na barriga. Só eu sei quanto doeu. Entrei no carro sangrando depois de deixar ele desmaiado e fui ao Free Bar...
- Uísque sem gelo, por favor!


3. Duas garrafas de vodca



Tomei num gole só e emendei outro. O terceiro eu tomei com calma, e o quarto e o quinto também. Senti a dor diminuir, fui até o banheiro e lavei, tirei o sangue. Estava tudo bem, parou de sangrar. Voltei a mesa e havia alguém sentado ao lado.

- É o quinto já, porque tanta sede?
- Se você tivesse um buraco na barriga como este – e levantei a camisa – entenderia..
- Imagino...
- Inteligente de sua parte...
- Me indicaram você para fazer um trabalho para mim..
- Como assim? Quem mandou você vir falar comigo?
- Florez, disse que você topa qualquer empreitada.
- Bom, desde que pague adiantado!
- O dinheiro não é problema.. a propósito, quer outro uísque?
- Ah, já que esta interessado.. pode ser com gelo agora.

Estendeu o braço para o garçom que logo entendeu e 1 minuto e 50 depois, estavam três pedras de gelo boiando no meu Jack Daniel’s. Sempre me partia o peito fazer isso, mas como era o desgraçado que estava pagando, decidi estragar o uísque.. só para ele não se vangloriar muito.

- Você não me falou que tipo de serviço vai querer – perguntei antes de tomar um gole, realmente o uísque estava ruim. Beleza, agora ele não era tudo isso mais.
- É simples, só você apagar um cara. Metade agora, metade depois do serviço feito.
Eu já havia roubado velhotas, obesos, crianças, dado uma surra em devedores, surrupiado varais, invadido casas, roubado carros, lojas, flagrado mulheres traindo seus maridos, vendido drogas, contrabandeado eletrônicos, falsificado passaportes, uísques e roupas, por dinheiro, mas matar... não, matar nunca. Pois bem, há sempre uma primeira vez.
- Hmm.. e de quanto é essa primeira metade?
- 5 mil senhor!
- ME DIGA, ONDE ENCONTRO ESSE CARA?!?!
Negócio fechado! Agora eu precisava encontrar um tal, Leandro num cassino da cidade. Seria moleza. Só ainda pensava a respeito da arma... uma .45 ou um 32? Talvez até uma faca. Bom, eu tinha uma semana para matar o cara.
Quando sai do bar e fui procurar meu carro havia o maior aparato de policiais na volta, na certa o dono deu queixa e encontraram o carro todo cheio de sangue ali na esquina. Azar, eu ia caminhando pra casa...
...
Droga, começou a me doer esse buraco, preciso de um carro. Maldita mania essa minha, tenho 5 mil no bolso!
- Táxi!
Assim esta melhor...
Cheguei em casa, lavei e fiz um curativo. A dor estava voltando... Achei meu analgésico favorito no armário, duas garrafas de vodca....

4. Gim tônica e um café expresso para viagem



Acordar tarde e com dor de cabeça não é um bom começo para quem tem, agora, seis dias para bolar um plano, encontrar e matar um cara, mas é o que eu faço. Coloquei a minha melhor roupa e sai. A facada que o Edie me deu ainda doía, mas estava bem melhor. Sobrou meia garrafa de vodca ainda, coloquei no meu cantil e a guardei no bolso do meu paletó velho e amassado. Saltei para fora de casa. Precisava de um carro.
Estava pilotando agora um Maverick preto, peça rara. 110 km/h marcava o velocímetro, mas eu sabia que essa belezinha ainda podia alcançar muito mais. Desci o pé no acelerador, 125, 130, quando cheguei em 150 km/h tive que reduzir, dobrar a esquerda e estacionar. Cassino Golden Paradise. Provavelmente Leandro não estaria lá, mas seria interessante observar o local.
Logo na entrada vi Lorena tomando um drink no bar. Sentei do lado e pedi um martini, a bebida veio com uma azeitona presa por um palito de dente. Ridículo. Comi a azeitona e espalitei os dentes. Bebi o drink em um só gole. Lorena sorriu. Depois foi embora...
O cassino era atraente, muitas mesas, mulheres, apostadores, velhos, ricos, vestidos, decotes, bundas, educação, uísque, martini, gim, vodca, água tonica, ouro, prata... e eu ali, parado. Um assassino esperando sua vitima. Seria suspeito um homem de aproximadamente 40 anos, mal vestido, ar de embriagado, fumando cigarro e observando o ambiente? Acredito que sim, então me dirigi a uma mesa e fiz uma aposta. Perdi. Lá se foram 200 mangos. Azar é do goleiro pensei, apostei novamente, perdi 180 e larguei fora. Tomei vodca com limão no bar, observei Lorena de longe. Era minha chance. Ela se esgueirava pelos homens. Não vinha na minha direção, mas fui até ela. Pouco antes de eu a alcançar, um velho a abraçou. Quanto será que ele estava pagando? Não interessa, eu pagaria mais!
Fui embora antes de arranjar confusão. A noite chegou, me embriaguei num bar e voltei ao cassino. Bêbado eu não poderia matar ninguém. Então pela primeira vez pensei: Como eu saberia quem era Leandro? Lorena! Lorena poderia me ajudar. Procurei ela.
Lá estava, ao lado de outro velho homem. Me aproximei, ela notou.
- Lorena, quanto tempo! Será que tem tempo para um drink ali no bar?
- Você vai espalitar os dentes com o enfeite do martini?
- Esqueça... eu lhe pago um!

Ela falou algo no ouvido do vovô, e ele deu um sorriso.
Agora eu tinha Lorena. Aquele corpo. Aquela bunda! Mas eu precisaria pagar uns quantos drinks para ela ir para cama comigo. Bom, isso não era problema.
- Você viu Leandro por ai esta noite?
- Você diz aquele velho que estava comigo?
- Oh... sim. Err.. estava apenas mexendo contigo, me diz, o que ele faz? Quer dizer, porque tu acha que alguém o gostaria de ver morto?
- Um juiz viciado em cassino e mulheres jovens? Ora, muita gente... porque a pergunta?
- Você sabe... a gente sempre escuta a conversa do quarto do lado.
- Um grande apostador como ele deve ter vários inimigos... mas não me importo com isso.
- Realmente... Até mais!
“Filho da puta, 10 mil para apagar um tipo desse? Eu deveria cobrar muito mais!”, pensei dentro do maverick e acelerei até o Free Bar.
Lá estava o poderoso chefão.

- Escuta, mudamos os planos. Te entrego essa noite a cabeça do seu velhote... e você me dá 20 mil. Pegar ou largar.
- Desculpa, mas nós já fechamos um trato.
- Pouco me importa. Você sabe quanta gente quer o pescoço desse cara... você sabe a importância que ele tem, e que não é bem assim para apagar ele. Quero 20 mil, e pode ser agora.
- Isso não tem a menor importância. Escuta aqui... você vai fazer o trabalho para mim, senão quem vai dançar vai ser você, esta ouvindo? O prazo mudou também, tem até amanhã a noite... neste horário! Eu lhe dou os 5 mil e nunca mais vejo seu rosto, você o mesmo.
- Me dê 10 mil amanhã e encerramos o assunto.
- 10 mil, nada mais...
- Quer dizer, me pague outro uísque... sem gelo, por favor.
Fiquei tomando um verdadeiro Jack enquanto ele deu as costas e se mandou. Bom, arranquei mais 5 mil do poderoso chefão, não há o que reclamar.
O plano seria o seguinte, provavelmente ele vai sair esta noite com a Lorena. Vão para um motel, vai ser moleza. Tudo que eu preciso é estar preparado, estar lá na hora certa. Pego ele saindo do cassino, acerto ele e me mando embora. Lorena... bom, não me importo em apagar ela também. Ou será que me importo? Maldito tesão... bom, posso poupar ela.
Edie entrava enquanto eu terminava com o meu uísque. Nem vi quando ele me agarrou por trás e me jogou no chão. Um monte de socos vieram tocar meu rosto e eu só me senti mais aliviado quando acertei suas bolas com um chute. Ele se retorcia no chão novamente, já havia visto essa cena antes. Foi fácil, acertei sua cabeça com uma garrafa. Ele continuou vivo, mas apagou por uns instantes. Logo logo estaria atrás de mim de novo, eu só tinha que segurar até amanhã. De noite dava o fora desse inferno, ia viver uma vida nova longe daqui... a sorte tirana!
Terminada a confusão, retomei os pensamentos e decidi que era hora de agir. Para fechar um ultimo pedido;
- Gim tônica e um café expresso para viagem.

5. Uísque, com certeza!




Estacionei próximo ao Golden Paradise, e de dentro do meu possante observava o movimento. Toda hora saiam homens e mulheres, tanto sós quanto acompanhados, mas nunca os meus garotos. Tomava um café para me manter ligado, o cigarro quase queimava meus dedos. Uma ultima tragada e o joguei pela janela do carro. Admiti para mim mesmo que estava nervoso. Mas isso precisava ser feito, com nervosismo ou não. 01:35 da madrugada. 2:00 horas. Nada acontecia. Não podia entrar, eles iriam me ver novamente. Seria suspeito. Mas estava pouco me lixando para isso.
Assim que abri a porta para descer, lá estavam eles. Vinham um ao lado do outro, Lorena levemente errando os passos, levemente embriagada, ou talvez só fingindo e o porco ao lado, fumando um charuto. Seu ultimo charuto. Acelerei devagar... eles andavam rumo a esquina. Seria perfeito! Estava na hora. Pisei fundo no acelerador, o carro cantou pneu! Eles olharam para trás assustados. Vi os rostos apavorados. Passei do lado deles, quase deu para sentir a respiração, quase atropelei a sua barriga. Disparei três vezes! BANG! BANG! BANG! O gordo estava no chão. Os tiros pegaram no peito e na barriga, agonizava no chão. Lorena também caiu, me virei para ver se ela estava bem e ela viu meu rosto. Pensei em descer, mas os seguranças do cassino estava com suas armas em punhos já e corriam em direção ao meu carro. Acelerei de verdade agora, fiz a curva a quase 100 km/h, depois segui reto e entrei duas ruas atrás da minha. Não ouvia sirenes ainda, mas foi só eu descer do carro que elas começaram a soar. Larguei o carro na entrada do beco e entrei nele, fiz todo o trajeto que eu fazia nas madrugadas em que voltava bêbado do Free Bar, ou então do Royal Pub, só que dessa vez com o coração quase saltando pela boca, e claro, uma arma na mão. Eu sabia que não me encontrariam por aquele caminho. Então depois que sai do beco ajeitei meu cabelo, respirei fundo, guardei a arma, ainda haviam pessoas na rua. Acendi um cigarro e fui caminhando lentamente, me misturei ao resto das pessoas. Eu acabara de matar um cara e daqui a poucos instantes ganharia 10 mil pratas! Isso sim que era vida, dinheiro fácil. Na realidade não era tão fácil assim, era rápido. Rápido e desonesto, não sei porque mas isso sempre me atraiu. Passou uma viatura por mim, depois outra. Sequer me notaram na calçada. Cheguei em casa. Não havia nada para beber. Tomei um banho, troquei de roupa. Coloquei um chapéu velho, um cigarro na boca e fui até o Free Bar comemorar.
A noite estava incrivelmente boa. O barulho das sirenes me dava arrepios, que saco. Isso poderia estragar a graça toda. Mas eu estava vivo. Estava ligado. Só precisava de um trago. Caminhei até o Free Bar, estava quase lotado como era de se esperar para uma madrugada dessas. Eu sabia que ia ficar lá até o sol raiar, ou até alguma briga me forçar a ir mais cedo para casa.
O garçom me atende no balcão. Olho para a prateleira de bebidas, escolho a garrafa escondida da esquerda. A noite apenas iria começar...
- Uísque, com certeza!
6. Maldito uísque com gelo!!!




A noite passou rápida, tranqüila. Quase amanhecendo fui pra casa, estava um pouco tenso ainda. Terminei minha bebida e pulei num táxi. Me deixou em casa.
A porta aberta... algo estranho. Sabe aquele calafrio? Tinha um pressentimento ruim. Mas que se foda, ainda estava com a arma comigo. Entrei e vi uma bagunça pior do que a que eu tinha deixado. O cara que fez isso realmente sabe bagunçar as coisas. Minha garrafa especial de vodca no chão, quebrada. Ah, ele me paga. Saquei a arma, não estava mais brincando. Colchão, cadeira, televisão, garrafas, cinzeiros, revistas pornográficas, jornais, lixo, tudo junto. Na cozinha um barulho. Ele estava lá. Ai ele dá um pulo sobre a mesa e vem correndo com uma faca na minha direção, eu atiro duas vezes e vejo o sangue jorrar na parede. Desgraçado. Tem miolo espalhado por tudo. Sorte que eu vi o rosto dele antes de explodir com duas balas... era Edie. Maldito seja! Não dei mais nem um minuto li dentro. Peguei o que restava do dinheiro, troquei de casaco e sai depressa. Era cedo, muito cedo, estava bêbado e havia matado dois caras. Precisava pegar minha grana com o chefão de merda nenhuma. Era só segurar até de noite. Mas sabe-se lá quem mais quer me matar. Eu me viro.
Desci e peguei um táxi até o motel mais próximo, era o Barca do Diabo. Nome sugestivo... Pedi um quarto até as 23 h. O cara me disse que não podia ir sozinho, precisava levar uma das suas garotas. Mais essa... ok, levei a mais cara. 300 reais o quarto mais a garota. Tudo bem, assim eu ficava mais aliviado. Entramos no quarto, ela era uma beleza. O quarto nem tanto.
- Escuta, o negócio é o seguinte. Eu tive uma noite e tanto, ainda to meio bêbado. Vou tomar um banho e dormir, se tu quiser fica por ai liga a tv, sei lá.. vou te pagar do mesmo jeito. Se quando eu acordar tu estiver por ai ainda, eu deixo tu brincar comigo.
- Quem mando é o senhor! Quer ajuda ai?
Ah! Eu estava no paraíso! Sim, o dinheiro traz felicidade seu babaca!
Apaguei na cama, a vagabunda logo saiu do quarto. Acordei faltando 30 minutos para as 23 h. Estava novo em folha. Só uma fome do cão. Liguei para o serviço de quarto do motel. Pedi um pastel e duas cervejas. Maravilha. Antes de sair tomei mais uma.
Um táxi me deixou na porta do Free Bar, o movimento já era notável no bar.
Sentei no balcão e o garçom logo veio em mim:

- Mais cedo teve um cara aqui... deixou esse bilhete e pagou um uísque com gelo para o senhor, esta aqui...
- Com gelo? Eu mato esse cara...
O bilhete só dizia:
“Te espero no beco,
Trabalho feito, dinheiro na mão”
Era assim que eu gostava. Tomei o uísque, acendi um cigarro e caminhei até o beco. De longe eu avistei a sombra do cara. O poderoso chefão.

- E então? Tudo certo? Já dei um jeito no teu gordinho... gostou?
- Sim, sim! Bom não tenho muito tempo – estava meio inquieto – aqui esta sua grana...
- Deixa eu contar...
- Bom, na verdade não tem os 10 mil inteiros ai... f...
- O QUE TU QUER DIZER COM ISSO?
- Eu tinha garantido 5 mil antes não era? E bom, ai tem 5 mil, os outros eu vou lhe dar...
BANG! BANG!
Dois tiros a queima roupa no velhote. Revistei ele, tinha 10 mil certinho dentro do bolso do casaco. Peguei a grana, guardei a arma na cintura e pensei alto... talvez alto demais...

- Três homens morto, e 10 mil pratas!!
Um barulho atrás de mim. A sorte me sacaneou outra vez...
- Que tal... quatro homens mortos e 10 mil na minha mão?
- Lorena? – tremi quando vi aquela mulher de novo – Mas o q...
- Tava pensando que iria causar todo esse tumulto na cidade, pegar a grana e sair livre por ai?
- Bom esse era plano... mas escute, podemos ir juntos!

Só agora percebi que ela estava com uma arma erguida contra meu rosto... malditas pernas tem essa mulher! Tentei sacar a minha...

- Nem tenta! Escuta... metade da grana seria minha, eu que havia indicado ao defunto ai no chão você. Sabia que não iria negar, nem perguntar o porque! Eu receberia uma parte e depois o resto. Você apagou o cara, muito bem... mas agora eu apago você e levo toda a grana.
- Você? Porra, não da pra acreditar! Olha, assim não vai dar! Sem essa de me matar e pegar a grana! É só você dormir com algum milionário e consegue isso... deixa eu tirar a sorte grande dessa vez!

Descobri como dói um chute nas bolas com um sapato de bico fino.

- Cala a boca! Quem diz como vai ser aqui sou eu! Sorte grande tu vai ter se eu decidir te dar um tiro só na cabeça... ainda estou pensando...
- Vai pro inferno!
- Você primeiro... – apertou o gatilho.
BANG!
Um tiro seco, a queima roupa. Acertou em cheio, boa pontaria gostosa! Entrou bem no meio da minha testa e dilacerou a minha nuca! Finalmente morri, mas morri com mais de 10 mil pratas no bolso... há de concordar que não é para qualquer um não é mesmo? Mas a safada pegou a grana e saiu rindo. Subiu num carro e provavelmente saiu a mais de 100. Não fez o trabalho sujo e ficou com toda a grana. É assim que se faz, eu devia saber... Caralho, um gosto ruim na garganta... MALDITO UÍSQUE COM GELO!!!

FIM. (Pois então... nem foi tão profundo não é?)

terça-feira, 30 de março de 2010

A prisão

Vou lhes dizer o que eu ouvi enquanto estive ,
E o que os homens conversavam pelos corredores,
E o que os meus olhos enxergaram,
O que as janelas escondiam,
E as grades protegiam.

Vou lhes contar o que nunca devia ter visto - ,
E de que maneira eles nos mantiam quietos,
E o quanto nós tinhamos medo deles,
O quanto nos silenciaram,
E nossa voz calaram.

Vou lhes contar porque eles nos mataram ,
E de como torturaram as nosas mentes frágeis,
E como cegaram nossos olhos para o mundo,
Como deixamos de existir,
E sofremos em silêncio.

Vou lhes contar não sobre ditadura, censura
comunismo, nazismo, budismo, cristianismo,
cientismo, ocidentismo, niilismo, terrorismo,
facismo ou incredulismo.
Vou lhes contar sobre meu exilio em mim;

Lembro-me de uma noite sem estrelas,
e de outra com estrelas; não sei exato agora
em qual delas que tudo aconteceu,
mas, quando acordei já não existiam mais estrelas ou luas;

E os homens circularam com pedaços de mim,
com idéias de mim e projetos de mim.
As minhas unhas ficaram presas na parede,
e eu me calei depois de perder a cabeça;

Fiquei exposto ao meu eu,
E com o medo de meus pesadelos existirem,
Descobri que existiam e não eram poucos

, tudo foi tão real...
, eu fiquei despedaçado,
Por tanto tempo que ainda me faltam pedaços...