quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Que porra é Bob Dylan?

How does it feel to be on your own?

      Aquele ar cigano, de pirata desencarnado, ou de vagabundo sem lar, que atravessa uma cidade com um cigarro na mão, atrás de fogo pra acender e tragar uma fumaça compatível com sua saúde, aquele ar, aquilo, exatamente aquilo é uma incógnita. Eu não quero definir esse ar, não quero encontrar a resposta pra essa pergunta. Isso nem teria como. Mas eu quero me indagar até o fundo da minha alma, quero exercitar os neurônios estrapolados do meu cérebro para tentar entender: que porra é Bob Dylan?
Procurei nas entrelinhas - nas estrelinhas também - embaralhadas do Crhonicles e só encontrei mais rotas sem sentidos, desconexas. Na verdade não gostaria de encontrar a resposta, mas me esforço em raciocinar sobre, talvez se um dia encontrar eu escreva um livro contando. Talvez vire best seller. Mas esse ar cigano, essa imcompreensão é o que compõe a mística desse judeu de ar cansado. E eu sei que aquela voz rouca que lança um uivo de dor, não quer ser ouvida pelo entusista descobridor de mistérios, mas quer lançar perguntas ao ar, quer fazer as situações-problemas aparecerem e desaparecem como um raio. E no final das contas, a gente coloca um disco do Dylan, acende um cigarro e chora ouvindo uma canção sem nem precisar entender que porra ele é.
Essa é a resposta da pergunta? Claro que não. Se fosse tão fácil assim os fazedores de hit's na internet teriam a mesma mística, não? Então vai mais além. Mas vai até onde? Não quero saber, eu só quero mesmo é divagar um pouco sobre essa figura singular. Eu já sei que a resposta está soprando no vento, e que ele leva e traz essa resposta. Eu quero me antenar pra não perder ela de vista, deixar ela sempre a dois palmos da minha percepção. Mas nunca ouvi-la, definitivamente. Manter a incógnita, o mito, a preocupação em descobrir que porra é esse tal de Robert Allen Zimmerman! Dizem que é muito mais que um cantor que escreve e canta poesias retiradas do fuindo das entranhas de um coração partido envelhecido em whiskey doze anos. Dizem que é muito menos que isso, um babaca, uma tarturuga escondida num casco. Mas põe casco né? Casco de cowboy solitário e de cristão renascido.
Acho que ele é o dono do Desire, isso basta. Basta até o café esfriar, e o tempo do outro chegar na mesa. O tempo do cigarro percorrer metade do papel e quase encostar no filtro, fazendo meus dedos recuarem por culpa do calor. É só o tempo de duvidar de quem é Bob Dylan, aí não basta mais. Vira outra coisa, troca de figura. Vira o dono do Bringing it All Back Home. Traidor do Folk. Os Mutantes também trairam a música brasileira, ou não? Essa história de guitarra elétrica já deu o que falar. O negócio, eu acho, é a traição. Dylan traiu a todos, por isso não podemos achar uma explicação. Como responder uma mentira, uma pergunta que não existe? Ele só é. Entendeu a ênfase no "É"? Então, tudo como está e para de se questionar.
Vou tentar não perder o vento de vista, deixar o ar cigano tocar nas minhas narinas e entrar nos meus pulmões. Ouvir a voz rouca praguejar contra a chuva, contra a sala de estar, contra qualquer coisa. Vou apenas me acomodar numa poltrona velha, colocar a mão no queixo e em posição filosófica endagar outra vez - não antes de rir de todo esse texto ridículo: Que porra é Bob Dylan?

2 comentários:

  1. belo texto que se desconstroi. Parabens pelo ato poetico/magico.

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  2. na verdade, somos todos traidores e traídos, não temos lugar, é isso!!
    LET IT BEATNIK

    http://jackerouac.wordpress.com

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