terça-feira, 23 de novembro de 2010

Downtown... a cidade decaída... e eu que só queria um endereço

          Eu escrevi uma carta para um romance antigo, defasado, triste, abafado. A carta retornou para minhas mãos com um selo de devolução. Ela mudou o endereço e não me avisou, ou a cidade cresceu e a rua dela mudou de nome. Nas ruas de Porto Alegre a evolução tem sido assim, hoje eu caminhei desordenado pelas calçadas tristes, pelas alamedas cruéis e me senti um humano sem coração. As crianças me pedem esmolas, os cegos vendem bilhetes da loteria - um deles estará premiado, a sorte espera por você - um fiél enlouquecido tenta lhe convencer. Essa é a rotina dessa cidade, os mendigos não pedem passagem, eles se instalam nas calçadas, as lojas se adaptam, as arvores se adaptam. Não há quem resista ao cheiro dos churrasquinhos feito com podridão, não há quem não acenda um cigarro pra disfarçar a solidão. Lá vai outro jovem vender a alma para um traficante, são doenças antigas, as doenças dessa vida. Todos morrem um pouco a cada dia, e porque as crianças orfãs de rua despejam seus olhares dolorosos dentro de nós? Por acaso somos melhores do que eles? Não sentimos dor ou abandono a cada meia noite rompida? Eu estava com a carta na mão, procurando me encontrar, e ao meu redor um circo de insanidades pegava fogo. A realidade poderia assustar até um cego, porque o cego também vê, é você que não vê. Preocupado com os signos da cidade, com os códigos da evolução, com a realidade, enquanto a peculiaridade se perde através dos botões, através dos pregos, das maçanetas. Enquanto o infinito atravessa na sua frente, você se preocupa com o sinal de trânsito, com a linguagem dos carros e você morre, porque morto estará aquele que não sabe viver. Toda vez que você sentir a dor você vai chorar, e achando que isso vai ajudar vai tomar uma garrafa de vodca. Vodca não salva ninguém, eu bem que sei. E aquela maldita lembrança na minha cabeça. Eu não sabia porque a carta tinha voltado, eu agora só caminhava pelo centro, downtonw, cidade decaída. Ando entre anjos e demônios, os demônios me atacam, os anjos apenas correm de mim. Você vê nos olhos dos policiais o medo pelo caos, de um maníaco com uma bomba estourando as paredes de concreto que ele tanto cuida. As cabeças não-pensantes das pessoas que ele tanto respeita. Todas mortas antes mesmo de acionar o botão da bomba. Mas eu estava apenas atrás de um endereço. Você encontra indíos longe de suas casas, vendendo bugigangas, intrumentos de percussão, para alimentar seus filhos barrigudos, doentes, insensíveis e de olhares frios. O endereço pode ser atrás de um deles. A boca do universo começa no bueiro e termina na sala de espera de um grande consultório burguês. A cidade tem um mesmo tom, o tom do engano, do cinza desbotado. Vocês se perdem toda vez que encontram o endereço certo, eu me perdi muito tempo antes, apenas estou tentando me encontrar. Downtown, cidade decaída. Downtown, cidade das ilusões. O centro urbano, histórico, habitado por mendigos, indíos, feirantes, ambulantes, vendedores de pirataria, apenas humilhação para a espécie, uma espécie já apodrecida. Eu estava no centro, downtown, cidade decaída, procurando um endereço para enviar a carta. Um amor perdido, esquecido. Uma faca no meu peito. Apenas outra desilusão. Na carta eu escrevia palavras de ódio, eu fingia estar bem. Eu mentia alegria, eu sonhava com facas. Agora estou no centro, estou tentando pular de cima de um prédio. Downtown....

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