quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Bob Dylan -Transformar o cara em Cristo só pra depois chamar de Judas.

       Talvez já tenha se dito ou especulado quase tudo sobre a vida, e ou, carreira (artística) de Bob Dylan. Sobre os tempos reclusos, guerras conjugais, problemas com drogas, problemas com público, canções, interpretações falhas e também boas interpretações de sua obra. Mas acho que acima de qualquer pesquisa que se faça, acima de qualquer teoria, interpretação acadêmica, conversa de bar; está aquela sensação agradável (ou não) de ouvir uma canção, um suspiro que preenche a gaita, o toque dos dedos sujos na guitarra, ou no violão acústico, enfim, a sensação quase sempre única de ouvir algum trabalho do Dylan. E isso quer dizer que não importa o que o crítico disse sobre o disco, o que os fãs falam sobre a música ou que história ela guarda consigo, o que importa é o sentimento que eu sentirei quando os primeiros acordes soarem.



         Não existe nenhum deus, nenhum herói, existe um cara compenetrado em escrever suas canções para desafiar o mundo, os críticos e - incrívelmente - os fãs. Toda interpretação que se faz, e isso não se vale apenas para as músicas do Dylan, é só metade do que a música representa, a outra metade não pode ser escrita, porque ela só se nota quando transborda pelo nosso corpo, seja em lágrimas ou em urros de raiva. Assim como as canções tribais, as sinfonias das metrópoles, as canções de Dylan simplesmente existem porque deveriam existir. Aquilo é um conjunto, Dylan traduz o asfalto quente, o óleo diesel, o canto do pássaro em retirada, a fumaça dos cigarros... e como interpretar uma coisa dessas? Só nos resta sentir e o que tornará isso mais interessante é que cada um sentirá da sua maneira, conforme ele vê ou sente o asfalto, os pássaros e os cigarros. As teorias, as conversas, as interpretações, são todas tentativas de explicar esse sentimento, não as julgo erradas, eu sempre que possível faço isso, é até um exercício para entender melhor estes sentimentos. Mas the answer is blowing in the wind, e o vento já passou, a gente só olha pelo retorvisor e sente um vazio no peito. Por isso, fumar um cigarro olhando o disco se movimentar na vitrola, calmamente junto com a melodia, é igual (ou melhor), que tragar aceleradamente em uma mesa de bar, atormentado por aditivos noturnos tentando conversar um outro que "Desire" é melhor que "Highway 61". São tentativas, são interpretações, pessoais, interpessoais, chapadas, ordenadas; são sentimentos, são movimentos internos. É apenas uma canção, um som dançando em nossos ouvidos, mudando gerações, fazendo pessoas entrarem ou sairem do buraco. Este é Bob Dylan.



         Mas nessa confusão toda de sentimentos, de busca por explicação ou de tentar se aproximar do cara, acredito que uma coisa está certa: Bob Dylan traduz a metáfora da vida. Assim como outros artistas também o fazem muito bem (Julio Reny, no Brasil, Johnny Cash lá fora...), assim como outras formas artísticas também fazem, assim como o próprio futebol representa uma metáfora da vida, nos campos tortuosos e sujos de várzea onde alguns talentosos se sobressaem aos esforçados e nobres zagueiros. A metáfora é essa, a vida não é fácil, não é um gramado verde limpo e liso, é um campo esburacado, com sinais de uma guerra, é a guerra vista do front. E o cara traduz isso, o cara saca essa metáfora e amplifica a guitarra pra fazer isso, ou simplesmente senta com um violão acústico e uma harmônica. As mudanças de estilos, as trocas de sonoridades, são adaptações, adaptações que sua alma faz ao mundo que engole asfalto lá fora. Não se muda o mundo com uma canção, então não há o que insistir no mesmo erro. A metáfora está na nossa frente o dia todo, nos metrôs lotados, nos ônibus pegando fogo, e alguém precisa armazenar isso nas nossas telas da vida, alguém precisa botar a cara a tapa. Ser o Judas e ser o Cristo, ao mesmo tempo.
Cristo ou Judas? Ele ainda te espera à sombra, para uma cerveja e cigarros...

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Como trabalhei esta tarde! Acendi um cigarro e entre os meus dedos vi a fumaça subir cansada até o céu, tocando as nuvens. Me senti forçado a tomar uma cerveja e num bar qualquer e me sentei. Fui ficando alto, deixando as os problemas lá em baixo, me desprendendo de todo o mal, todo o cansaço, toda baderna, confusão do dia-a-dia. Mas no fim, retornei ao chão, paguei a conta e chacoalhei num ônibus até minha casa, ainda comprei uns cacetinhos e duas latinhas para a janta... pensando no outro dia de trabalho.

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

O futebol não popularizado no Brasil e Grêmio, a mística deste time

Notem as bandeiras uruguaias junto às gremistas ao fundo de De León e a Taça
    



             Há um tipo de futebol diferente deste popularizado aqui no Brasil e mais especificamente em países europeus. É diferente daquele futebol-arte protagonizado por clubes como Santos, São Paulo, Barcelona, Real Madrid e claro, o Sport Club Internacional, entre outros que não vale ficar citando aqui. Este futebol, que contraria a razão do espetáculo, é considerado desleal, sujo e o mais intrigante, místico. Desleal e sujo é o que entende-se pelo jogo forte, de marcação, em que o drible é o artifício do atacante para fugir das loucas pernas fortes do zagueiro, nada mais além disso. É o futebol-raça, que não disperdiça bolas paradas, jogadas aereas e tem como base sempre a força de seus jogadores, sempre enfurecidos que jogam como bufalos em campo. Já a mística, bom, isto é o mais impressionante. Torcidas enlouquecidas por seus times que não parar de apoiar seu time um minuto se quer, resultados inesperados, títulos impossíveis, jogadores quase sempre ditos como "medianos", dificilmente estes times têm em seu plantel jogadores "estrelas" ou ditos melhores do campeonato. A esta mística valem-se histórias extraordinárias de superação em campo, histórias que os levam a outro patamar de clube: os copeiros. Clubes de histórias inigualáveis, sempre com milagres em seu passado, sempre com decisões nervosas, títulos ganhos no último minuto, raça, sangue, força, dedicação. Amor a camisa. Poucos clubes ainda hoje dispertam em seus jogadores este sentimento, de amor a camisa, verdadeira entrega ao clube. Quando nos referimos a estes clubes estamos falando diretamente com os sulamericanos, e mais especificamente os uruguaios, argentinos e o único cisplatino-gaúcho, o time do Grêmio. Lotados de mística e história estão Boca Juniors, Racing, Independiente, River Plate, Estudiantes e os insuperáveis uruguaios que com apenas 3,3 milhões de habitantes e dois times grandes conseguem somar 8 títulos da Copa Libertadores da América, torneio mais importante do continente. Os dois clubes são Nacional e Peñarol.  No Brasil, o único clube que consegue manter esta tradição de mística, é aquele que se situa no estado mais próximo do Uruguai, o Grêmio Foot-ball Porto Alegrense, e não o Sport Club Internacional, seu rival. O porquê deste clube não fazer parte do seleto grupo de copeiros que mantém a mística é justamente o fato de não praticar o mesmo futebol dos demais, e ter como base o futebol-arte que chega até a ser mal visto por muitos.
 
       Falando então mais especificamente do Grêmio, este único clube brasileiro com mística e tradição de uruguaio, existem fatos que só acontecem com este time e é isto que reforça sua mística, é isso que o engrandece. Seu valor não está em patrimônio, não está em estrelas, o valor do Grêmio está nos títulos conquistados, nas históricas batalhas dentro de campo, são estes fatores que criaram o apelido mais apropriados de todos para um clube, Imortal Tricolar. Há ainda aqueles que o chamam de Tricolor dos Pampas, Tricolor Gaúcho... sempre fazendo referencia à sua estratégica localização geográfica ou ao título de imortal conquistado ao longo dos anos. Há coisas que só acontecem com o Grêmio, nunca vi fatos surreais acontecerem com outros clubes de futebol. A paixão de sua torcida desperta inveja nos outros torcedores e o centro do país - especialmente influenciado pela mídia - mantém um sentimento de ódio contra o Imortal. Incontáveis são as vezes em que os comentários esportivos, após mais uma vitória do Grêmio, dizem que o resultado foi injusto, que houve gols irregulares, faltas excessivas e que o adversário deveria ter ganho por "n" motivos. Não podemos reclamar, eles estão acostumados com outro tipo de futebol, o Grêmio e sua torcida estão acostumado a jogos heróicos, batalhas sofridas e vitórias que eles chamam "desonrosas". Todos muito bem sabem que não importa se a vitória foi por um, dois, três ou quatro gols de diferença, muito menos se o gol foi impedido, teve falta, com a mão e aos 47 do segundo tempo. O que importa é a vitória no final e estes são fatores que dão emoção ao jogo, que tornam a partida única e, aí que ela entra, criam a mística em torno de uma camiseta de clube, que no próximo jogo será respeitada pelo seu adversário.

       Muitas foram as façanhas que ajudaram o Grêmio a criar esta história de mística e força, mas algumas merecem destaque. Teve um jogo, a mais de dez anos atrás, entre duas grandes forças do futebol brasileiro, Grêmio e Palmeiras, nas quartas de finais da Copa Libertadores da América. O primeiro jogo foi na capital gaúcha em uma noite de inverno, no dia 26 de julho. O Grêmio contava com um elenco incomparável, colocado ainda hoje por muitos como um dos melhores elencos do Grêmio de toda sua história - Danrlei, o guerreiro que mais conquistou títulos pelo Imortal, sempre um lutador, que não tinha medo dos adversários; Arce, Rivarola, Scheidt, Roger, Adílson, Dinho, o que falar dele? Volante de contenção, talvez a personificação da raga gremista, batia até na sombra dos atacantes, Goiano, expulso em vários jogos da Libertadores, Arílson, Carlos Miguel e uma das duplas de ataque mais positivas, Paulo Nunes  e Jardel  - mas sem nenhuma estrela em campo. O Palmeiras contava com nomes como Cafu e Rivaldo. Pois logo no início o jogo ficou nervoso, o Olímpico Monumental pressentia que seria um dos jogos mais marcante da sua história e tremia junto da inseparével torcida. O resultado final foi 5x0 para o Grêmio contra um Palmeiras abalado pelas expulsões e brigas que aconteceram dentro e fora de campo. Rivaldo e Válber foram expulsos do lado palmerense e do Grêmio o volante de contenção Dinho foi expulso e ainda deu um chute na cabeça de Válber. Darnlei comprou a briga e também saiu batendo. A confusão se espalhou para a torcida e foi preciso a polícia agir. Logo que recomeça o jogo o Palmeiras parece perdido em campo e o Grêmio termina a fatura com 3 gols do centroavante Jardel. Para o jogo de volta, que seria em São Paulo o jogo parecia ganho, impossível de ser revertido. Poderia o Palmeiras fazer cinco gols e levar para os penaltis? Sim, poderia. Como disse, certas coisas só acontecem com o Grêmio e o Palmeiras fez os cinco gols necessários. Mas o Grêmio veio a campo com seu segundo uniforme, uma camisa azul celeste, calção preto e meias pretas, uniforme igual o dos irmãos uruguaios, talvez isto tenha ajudado, talvez isto tenha feito o milagre, e por obra do destino ou por qualquer outra razão desta mística que cerca essa camisa, Jardel faz um gol sofrido com a barriga e deixa o marcador final em 5x1 para o Palmeiras e classificando o Grêmio para a próxima fase da Copa Libertadores da América. Depois deste jogo não precisa dizer mais nada, o Grêmio foi campeão pela segunda vez do maior torneio do continente. A final havia sido aquela na verdade. Na revista Placar daquele ano, uma edição especial foi dada ao Grêmio e em uma página estava a seguinte declaração de Paulo Nunes:

       "Quem é medíocre? Chegamos as finais de todos os campeonatos que dísputamos!" Esbravejou o atacante contra as críticas que pintam o Grêmio como um timinho"

       Pois querendo ou não, mal ou bem, o timinho está sempre as cabeças, sempre chegando nas finais.
      
       Talvez o jogo mais emblemático da história deste clube seja Grêmio x Náutico. Este sim um time pequeno da segunda divisão do campeonato nacional e que, teoricamente não faz frente ao Grêmio. Teoricamente. Muitos apontam este jogo como um marco negro na história do Grêmio, apenas porque em 2004 o time caiu para a segunda divisão. Mas tal fato reforçou o amor do torcedor pelo seu clube, não se via um torcedor escondendo sua dor naquelas semanas finais do campeonato, e assim que se iniciou a segunda divisão, o Grêmio com toda sua história se mostrou humilde para enfrentar times pequenos em cidades do interior com estádios horríveis. Mas este é o Grêmio, não escolhe adversários e enfrenta as batalhas que vier, é sempre digno da vitória e quanto mais emocionante for a batalha melhor é o resultado. Mas há os amantes do futebol que classificam o jogo Grêmio x Náutico como um dos melhores do mundo. Sim, da história de todos os jogos de futebol do mundo - que se tem notícia, porque garanto que pelos gramados irregulares das várzeas espalhadas por aí, inúmeras batalhas milagrosas já foram travadas. Fato é que o Grêmio veio a campo carregando toda sua história nas costas, em um estádio hostil e lotado - mesmo que pequeno - por torcedores fanáticos. A partida começa e os resultados paralelos obrigam o Grêmio a vencer a partida, mas o time do Náutico que também tinha chances de subir para a primeira divisão também tem a mesma vontade de ganhar. Bom, talvez não a mesma vontade, mas era grande sim a vontade de ganhar. O jogo segue nervoso, disputado, com chegadas fortes dos volantes dos dois times, até que então um pênalti é marcado contra a meta tricolor, que era defendida por Gallato. Desespero? Sim, mas era só o começo. Para alívio tricolor a bola é chutada na trave, mas ainda continua a pressão do Náutico. Mas o ápice do desespero ainda estava por vir, o Grêmio na segunda divisão jogando contra um time pequeno via o tempo passar lentamente naquela tarde de 26 de novembro de 2005, e viu ainda o arbrito marcar outro penalti contra o Grêmio. Não se poedia imaginar que eles perdessem outro penalti, por mais otimista que se tentasse ser, mas o que as vezes a gente esquece é que a questão não é ser otimista, é ter fé na mística do Grêmio, isto está além das questões de otimiso ou pessimismo. E para ampliar esse "pequeno detalhe" na confusão o Grêmio tem 4 (QUATRO) jogadores expulsos, ficando com apenas 6 jogadores na linha mais o goleiro, que tinha agora um penalti para defender. A confusão foi grande, dirigentes gremistas desceram ao gramado, os jogadres foram para cima do arbrito e a polícia entrou em campo e até mesmo agrediu alguns jogadores gremistas que ali estavam. Mas o penalti haveria de ser cobrado e não adiantava o quanto os jogadres tentassem retardar a cobrança. 25 minutos se passaram e o penalti seria cobrado. Como o Grêmio iria vencer com 7 jogadores em campos, um penalti contra prestes a ser batido e um estádio inteiro já comemorando o título. Antes da hora. O penalti foi batido e milagrosamente foi para nas mãos de Galato. Inexplicável, inacreditável, e a bola ainda saltou para longe do gol dando tempo para os jogadores correrem e abraçarem o goleiro agora herói. Na sequencia, a mística se fez valer, o inexplicável aconteceu. O jogador Anderson, um garoto ainda, sofre uma falta perto do meio campo enquanto ia avançando em direção a meta do Náutico. Os jogadores ainda anestesiados pelo penalti perdido não prestam atenção na jogada. A falta é rapidamente cobrada e Anderson se desloca rapidamente em direção a area... aquela sensação não pode ser explicada, o jogador seguia driblando seus marcadores e visava o gol, seria gol, o Grêmio iria ganhar a partida, seria campeão! E foi isto que aconteceu. Anderson fez o gol, consagrou-se como herói tricolor, o Grêmio foi campeão da honrosa série b, retornou a primeira divisão e o Anderson foi vendido ao futebol inglês para se tornar um dos executadores do futebol-arte. Irônia do destino? Sim, e o Grêmio parece sempre colecionar estes fatos.

          Para deixar claro que esta mística não é algo passageiro, e sim algo que acompanha e sempre acompanhará o Grêmio, estes fatos heróicos e emblemáticos continuam acontecendo. Até mesmo quando o time não joga. A prova de que o time merece o título de imortal aconteceu neste campeonato brasileiro. O time era o penúltimo colocado, vivia o inferno e sentia o medo de cair novamente para a segunda divisão, se falava em milagre, "só um milagre tira o Grêmio dessa situação". Aconteceu. Foi contratado Renato Gaúcho, um treinador que leva nas costas o peso de maior ídolo da torcida, responsável pelos gols do título mundial, da jogada emblemática contra o copeiro Peñarol na final da Libertadores de 83. Pois ele tem como primeiro jogo uma decisão. Grêmio x Goiás pela copa Sulamericana. Renato mal tinha pisado em solo gaúcho, nem conhecia o time, mas mesmo assim foi para a beira do gramado tentar alcançar a vitória. Acabou perdendo, mas aquela derrotada não era dele, era do ex-técnico Silas. O Grêmio abandonou a competição e avançou no campeonato nacional, o Goiás abandonou o campeonato nacional e avançou na competição, acabou rebaixado para a série b mas chegou a final da Copa Sulamericana. Por mérito de Renato Gaúcho, o Grêmio alcançou a quarta colocação no final do campeonato nacional, e aquele time que estava prestes a ser rebaixado e que ninguém acreditava desbancou grandes forças do futebol brasileiro e chegou a quarta colocação, que dava lugar a Taça Libertadores. Dava, porque na última hora a CONMEBOL, federação que organiza a Taça, afirmou que só se classificaria para a Libertadores o campeão da Copa do Brasil, o primeiro colocado no campeonato naciona, o segundo, terceiro e o quarto, caso não haja um campeão brasileiro na Copa Sulamericana. E veja só, por ironia do destino o Goiás estava na final, o mesmo clube que eliminou o Grêmio na primeira fase e agora enfrentava o Independiente, o clube que anos atrás ganhou a final do Grêmio na Taça Libertadores, em 1984, quando o Grêmio seria bi-campeão. Por ironia do destino o Grêmio teria de torcer para o clube que tirou seu título em 1984. A mídia brasileira dizia que o Grêmio teria a "difícil" missão de torcer para um time argentino, estava claramente entendido que eles não sabiam nada sobre a indentificação da torcida gremista com a Argentina. Pois enfim a decisão começou, seriam dois jogos, aqui no Brasil primeiro e depois lá na Argentina. Os Diablos Rojos começaram perdendo por 2x0 e muitos garantiram: "O Grêmio não vai para a Libertadores, o título fica com o Goiás, rebaixado para a 2° Divisão". O maior campeão de Libertadores (7 Copas) estava caindo para um time rebaixado, também pudera, tinha um time fraquíssimo com poucos jogadores que honravam a camisa que vestiam. O Grêmio tinha de torcer para um inimigo que tirou seu título e mais difícil ainda era reconhecer que o Goiás, mesmo rebaixado e contando com apenas UM jogador bom em seu elenco (Rafael Moura), tinha melhor time. Mas a partida na Argentina foi diferente. Jogar em um estádio chamado Libertadores de América não é para qualquer um e o Goiás sentiu. A torcida gremista em Porto Alegre estava ansiosa e atenta, maravilhada com a torcida barra brava de Los Diablos Rojos! Olhos apavorados dos jogadores goianos olhavam para todos os lados da arquibancada, tentando entender o que estava acontecendo ali. Verdade é que o Goiás não tem história para fazer frente contra um time deste tamanho, por mais que a situação fosse totalmente a favor deles. Mas o jogo começa e o Independiente faz jus a sua história. Veste seu mais tradicional uniforme azul escuro com o símbolo antigo, como quem diz para seu adversário: "Olhe aqui toda minha história!". E o Goiás olhou, resolveu encarar mas tomou 3x1 no primeiro tempo. Somando dava 3x3 (2x0 para o Goiás no Brasil e 3x1 para o Independiente na Argentina) e este resultado se persistiu durante toda etapa complementar e toda prorrogação. A decisão ficaria nos penaltis. Mas o que se viu no final do jogo foi um Independiente cansado, a torcida que os conduzia e os animava, mas as pernas estavam pesadas e eles queriam que aquilo acabasse logo. Para desespero gremista o Goiás jogava com todo gás, afim de ganhar a partida. Em Porto Alegre a madrugada avançava ameaçadora, não merecia o Grêmio depois de todo este ano ser premiado com a mística tricolor? Não merecia este prêmio o Imortal dos Pampas? Sim, merecia. E sentindo o peso do estádio, chutou na trave um jogador goiano e depois, apenas com a experiencia um zagueiro o Independiente alcançou a redenção e se sagrou Campeão da Copa Sulamericana 2010 e graciou o Grêmio com uma vaga para a Libertadores 2011. Ainda assim, há os que dizem que o Grêmio esta comemorando uma simples vaga para a Libertadores como se fosse um título, só que mais uma vez eles não entendem que o que vale é a emoção da conquista. Mesmo não jogando o Grêmio conquistou algo, somou pontos a sua tradição, a sua camisa esta mais pesada agora. E se vocês não entendem que este time só pensa em Libertadores, não o critiquem, pois este é o tipo de futebol que o Grêmio gosta. Futebol raça, este que não é popularizado aqui no Brasil...
     

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

JAPAN WARS ON U.S AND BRITAIN!

Capa do jornal americano New York Times de 8 de dezembro de 1941 - II Guerra Mundial
       

          8 de dezembro de 1941, exatamente 69 anos atrás o Japão atacava a base norte-americana de Pearl Harbor no Hawaii, e entraria para a história, ganharia filmes, faria heróis - e matava gente. Essa é a razão da guerra, seja em qualquer lugar, Rio de Janeiro, Haiti, Afeganistação, Iraque, é só a morte. O inferno vai lotando de ditadores, de traidores, enquanto aqui o terror corre solto pelas ruas. Essa é nossa liberdade, poder declarar guerra a quem quiser, pelo simples motivo de termos poder - poder?.
       Pois então, 69 anos atrás morriam norte-americanos em uma manhã de domingo, por um ataque surpresa janponês. Agora as crianças estavam ficando órfãs, as mães de luto, as esposas viúvas e os amigos sozinhos. A lua brilharia bucólica para os sobreviventes com membros arrancados naquela noite, e o sol do domingo foi manchado de sangue. Os aviões japoneses logo retornariam para sua terra e esperariam o contra ataque. Esta é a lógica. Familias japonesas também seriam decepadas de seus pais e medalhas de honra também seriam creditadas aos que retornarem em condição de receber uma.
       Portanto, faça uma guerra hoje; tenha uma bomba atômica na mão para qualquer emergência e se alguém sobreviver - essa não! - de uma medalha de consolo; explique que a pátria está muito grata de sua presença. A economia do seu pais agradecerá uma façanha heróica, e vocês poderãm escravizar povos até então desconhecidos. Sejam os senhores da guerra, vocês tem o poder de derrubar sangue, vocês mancham a terra com esta glória empodrecida e tramitam nas linhas de frente com seus zumbis patrióticos. Se torne a escória da humanidade, se torne facista, beba pelas pessoas afogadas em um oceano de sal, os trabalhadores que não verão a luz do dia no próximo amanhecer e todo o sangue inocente derramado por tuas mãos. Essa é a verdade e a lógica dos senhores da guerra, este é o hino desalmado dos capitães de guerrilha.
       Metralhadoras, canhões, pistolas, na verdade você sabe que nada poderá silenciar um pensamento. Vocês perderão essa guerra, e será por desistência. Vocês acham que honram uma imagem santa derrubando todo este sangue? Acham que a história irá lembrar para sempre de vocês? Os ditadores irão comer seus rins no almoço e os facistas serão vocês, os demônios serão expurgados da linha de frente e o pelotão ganhará ordem de descanço permanente - nas terras do inferno. Ah senhores da guerra, peguem suas espadas santificadas pela destruição e enfiem em vossos peitos honóricos, e parem de destruir escolas, igrejas e templos sagrados.
       1941 é hoje, 1941 é uma lembrança. Bem vindo a segunda guerra mundial. 

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Hotel Solar

           Lá estão as musas tristes que desfilam dentro de seus vestidos apertados e seus sapatos de salto alto, de um lado para o outro sob a calçada suja da frente do Hotel Solar. São as criaturas da noite, da solidão e do engano que por ali habitam respirando o ar sujo, mal-cheiroso e indecente. As coisas acontecetem ali de qualquer jeito, a qualquer hora, existem vidas em jogos em qualquer momento no Hotel Solar, e você não deve se preocupar, a menos que tenha uma reserva para terça-feira e em seu quarto um defunto gelado estiver escondido de baixo da cama. Há uma música que todos ouvem no Hotel Solar, vindo das maçanetas emperradas e das escadas entupidas de cupim. Mas de dia uma névoadisfarçada paira sobre aquele ambiente, e sob sua marquise as pessoas passam sem saber do que se trata, mas carregam toda dor e todo medo dos que entram no hotel. Os ônibus, os carros, eles queimam o ar quente que entra pelas janelas e cai sobre as camas, cheias de ácaro. E no fim de tarde as musas tristes disputam lugar entre os traficantes de carne, entre os vendedores de droga, entre os enfiadores de qualquer-coisa no corpo, os seguranças de boates, os transeuntes cristãos e os religiosos de porra-nenhuma.
         Mas há algo que os leva até o Hotel Solar, no seu peito uma dor, uma desilusão que amarga devagar durante a madrugada fria, ou o dia quente. Uma gota de esperança que só pode ser vista da janela do Hotel Solar é a desculpa dos amantes, dos viciados, das prostituas, dos perdidos, para frequentarem o local. Um letreiro em neon que pisca lentamente avisa sobre a magia do local, e apenas os que não tem nada a perder tem a sensibilidade de sacar. Há luz no Hotel Solar, o sol brilha apontando para lá e a lua ilumina todas as noites, junto com as estrelas que guiam cada sonho absurdo deste hotel.
      Ao longe vejo mais uma alma perdida pagando a taxa da diária... e nos confins assustadores da solidão, sua paz retorna fresca, afim de mais uma dose de aventura. Movido pelo medo.