terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Hotel Solar

           Lá estão as musas tristes que desfilam dentro de seus vestidos apertados e seus sapatos de salto alto, de um lado para o outro sob a calçada suja da frente do Hotel Solar. São as criaturas da noite, da solidão e do engano que por ali habitam respirando o ar sujo, mal-cheiroso e indecente. As coisas acontecetem ali de qualquer jeito, a qualquer hora, existem vidas em jogos em qualquer momento no Hotel Solar, e você não deve se preocupar, a menos que tenha uma reserva para terça-feira e em seu quarto um defunto gelado estiver escondido de baixo da cama. Há uma música que todos ouvem no Hotel Solar, vindo das maçanetas emperradas e das escadas entupidas de cupim. Mas de dia uma névoadisfarçada paira sobre aquele ambiente, e sob sua marquise as pessoas passam sem saber do que se trata, mas carregam toda dor e todo medo dos que entram no hotel. Os ônibus, os carros, eles queimam o ar quente que entra pelas janelas e cai sobre as camas, cheias de ácaro. E no fim de tarde as musas tristes disputam lugar entre os traficantes de carne, entre os vendedores de droga, entre os enfiadores de qualquer-coisa no corpo, os seguranças de boates, os transeuntes cristãos e os religiosos de porra-nenhuma.
         Mas há algo que os leva até o Hotel Solar, no seu peito uma dor, uma desilusão que amarga devagar durante a madrugada fria, ou o dia quente. Uma gota de esperança que só pode ser vista da janela do Hotel Solar é a desculpa dos amantes, dos viciados, das prostituas, dos perdidos, para frequentarem o local. Um letreiro em neon que pisca lentamente avisa sobre a magia do local, e apenas os que não tem nada a perder tem a sensibilidade de sacar. Há luz no Hotel Solar, o sol brilha apontando para lá e a lua ilumina todas as noites, junto com as estrelas que guiam cada sonho absurdo deste hotel.
      Ao longe vejo mais uma alma perdida pagando a taxa da diária... e nos confins assustadores da solidão, sua paz retorna fresca, afim de mais uma dose de aventura. Movido pelo medo.

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