sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Oh Mamma Reggae

 - Então, se é isso que você quer, o universo cabe na palma da mão....

         Isso foi o que Mamma Reggae disse antes de apertar mais um. E seus delírios navegavam em suaves nuvens de fumaça. E seus colírios reluziam em qualquer estação, atravessando o pacífico Oceano Pacífico a bordo de um cruzeiro, que nas ruas de terra da velha cidade eram verdadeiros caça-papéis de rico, o emprego das crianças.

 - Esse grande bolo verde é tudo que cabe em sua mente...

      Oh Mamma Reggae! Teus cristais reluzentes da cor da espuma do mar não respondem ao jovem garoto. Deixe que Mick Jagger aperte Peter Tosh...

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

Últimas lágrimas do Monumental

Grêmio x Boca Juniors

         Chovia de maneira descomunal naquele dia. Gremistas fervorosos, azuis de alma lavavam seus rostos tristes em lágrima, desespero e dor, e tinham a esperança ofuscada pelo breu que se formava sobre suas cabeças e as gotas amargas que desciam daquelas nuvens. Era o último jogo oficial no Estádio Olímpico Monumental, e o Grêmio perdia, novamente. Fadado ao rebaixamento, ao fim trágico de um clube de futebol, marchava o Grêmio para os minutos finais daquele jogo. Grêmio zero, Flamengo um. Os cariocas zombando como nunca do nosso vexame histórico e nossa derrota emblemática dava o título à eles. Quarenta e sete minutos, o juiz – que não marcou duas penalidades máximas no primeiro tempo para o Grêmio – prometeu jogo até os quarenta e oito, mas a torcida não queria que o jogo terminasse. Eram os últimos minutos do Grêmio na Série A do Campeonato Brasileiro, eram os últimos minutos em que a grama do Estádio Olímpico Monumental receberiam as travas honrosas dos jogadores gremistas. Ironia do destino, quis as Forças Superiores do Futebol que as travas dos jogadores flamenguistas deslizassem alegremente naqueles últimos instantes finais. E eram 40 mil torcedores do estádio, nenhum levantou, nenhum foi embora. Por horas algo acossava todos os corações gremistas machucados no Estádio e os faziam ficar calados por segundos, ouvindo vergonhosamente a bola bater nas canelas dos jogadores tricolores. Quarenta e oito minutos, já estava esgotada a participação do Grêmio na Série A. O presidente chorava dentro do vestiário quando chegou a notícia esperançosa: o Atlético Mineiro venceu com um gol aos exatos quarenta e oito minutos a equipe do Bahia, e estavam eles caindo direto para o inferno da Série B, caso o Grêmio empatasse. O Vasco vencia por três a zero o Corinthians e se garantia em segundo lugar. Um só gol mudaria a história do campeonato. Caso o Grêmio empatasse, o Bahia seria o rebaixado, e o Vasco seria o Campeão Brasileiro, sobrando para o Flamengo, a segunda posição.
         A notícia do gol do Atlético ressoou nos autofalantes do Estádio, a torcida se calou para ouvir e logo depois encher os olhos de lágrimas. A festa que havia sido organizada no Olímpico, para a sua despedida estava indo por água a baixo. Haviam caminhões com guindastes para levar as goleiras até o outro Estádio, já pronto e apenas faltando os arcos do gol. Mas o relógio já avançava os quarenta e oito minutos, o Grêmio fazia muitas faltas no Flamengo, até que numa delas se rompeu uma confusão perto da área carioca. O confronto dos jogadores logo foi exterminado quando o juiz aplicou dois cartões vermelhos para o Grêmio e um para o Flamengo. Golpe duro para o time tricolor. Os jogadores olhavam para as arquibancadas vertendo água da chuva e lágrimas que escorriam de olhos velhos, que já haviam visto Renato Portaluppi jogar naquela cancha, e de olhos mais jovens, que não haviam visto nenhum caneco ser erguido por um guerreiro tricolor com seu manto sujo de barro. Aquela visão iluminou os jogadores gremistas, que se reuniram em grupo, onde a falta seria cobrada a favor do time gremista e começaram um discurso. A torcida inflamava gritava seu amor pelo Grêmio. O juiz avisou ao capitão do time gaúcho que era só cobrar a falta e assim que desse o jogo terminaria. Todos se posicionaram em seus devidos lugares. A pelota foi chutada junto a água de maneira horrorosa e acabou no peito vermelho e preto de um carioca desavisado da força e valentia de um gaúcho, e como um infante farrapo, ele atropelou o flamenguista levando bola, grama, chuteira, tudo que tivesse pelo caminho. Era falta, mas o juiz não deu. A torcida inflamada sentia o momento histórico que estava acontecendo em frente aos seus olhos. Todos os jogadores do Grêmio correram em direção a bola que ficou sobrando no meio da área. Longe do alcance do goleiro, dos zagueiros, dos atacantes, de todos. Até que todos foram ao seu encontro. Uma cena pitoresca que lembrava mais uma partida de Rugby do que de futebol. Os cariocas assustados pela chuva, pelos trovões, pelo gramado do Estádio, pela torcida, pela força charrua dos gaúchos, olhavam assustados aquele monte de tricolores correndo e pulando, se atirando em direção a bola e impedindo que algum carioca chegasse perto. O juiz colocou o apito na boca para encerrar a partida, a bola circulando ainda na área flamenguista. Nesse instante o relógio marcava exatos quarenta e nove minutos com cinqüenta segundos. O presidente foi até a beira do gramado, seus olhos inchados do choro trágico de segundos atrás viram aquela bola ser rebatida sabe-se lá por quem e parar a poucos centímetros da meta defendida pelo goleiro carioca. E não se sabe quem chutou, só se ouviu o som mais puro e claro de uma bola estufando a rede. Ploft! O Grêmio era Campeão! Campeão de si mesmo, pois naqueles anos o Grêmio disputava seus próprios campeonatos vexatórios e imaginários. A confusão foi generalizada, o juiz terminou a partida e a policia invadiu o gramado. Ninguém sabia o resultado. A televisão não conseguia mostrar o momento do gol. “O gol que ninguém fez”, a única imagem que existia era a bola no fundo da rede, encharcada de barro e água. Alguns minutos depois os mesmos autofalantes que haviam sido ligados para avisar minutos antes que o Atlético Mineiro vencera e ajudara o Grêmio, deram a notícia em voz de choro. Se sentia a emoção na voz daquele locutor que chorava e mal conseguia dizer uma palavra, pedia: “atenção, atenção torcedores e jogadores....”, chorando, e após tomar um fôlego, só conseguiu dar a notícia gritando a plenos pulmões, “FOI GOOOOOOOOL DO GRÊEEMMMIOOOOOOOO!!!!!”. E jamais se viu tanto descontrole num estádio. O Flamengo foi embora do Rio Grande do Sul deixando boa parte de seu material esportivo ainda no Estádio, temendo uma possível fúria da torcida e os jogadores sem acreditar no que o Grêmio havia feito – escapar do rebaixamento e ainda tirar o título dos cariocas – voltavam encharcados de ônibus ainda chorando, e liam algumas placas publicitárias espalhadas pelas estradas de Porto Alegre “Bem vindo a terra do primeiro gaúcho Campeão do Mundo!”. E se deram conta de que o Grêmio nunca deixou de ser um campeão do mundo.

Olímpico Monumental em festa
         E com chuva a torcida invadiu o campo, as maquinas que já estavam desligadas e sem funcionários – pois o presidente tomou a decisão de fazer isso na manhã seguinte, esperando tons fúnebres para a ocasião. Os torcedores se atiravam na lama do gramado, se atiravam nas poças d’agua e em meio aquela confusão de torcedores, os jogadores ali se concentravam, fazendo suas orações e agradecendo por terem sido iluminados daquele jeito. Os quarenta mil torcedores invadiram o gramado, não havia qualquer tipo de reação do clube ou da policia, era apenas uma euforia impossível de controlar. E com algumas palavras junto ao presidente a decisão foi tomada: a torcida levaria as goleiras nos ombros, como uma espécie de romaria até o outro estádio. E o choro se rompeu em todo o lugar, torcedores que não estavam no Estádio invadiam o gramado de todos os lados e se sentiam abençoados por serem gremistas. E naquele descontrole, todos juntaram forças para erguer as traves sobre seus ombros e como mártires que carregam a cruz, a conduziram por longos doze quilômetros. Mil e duzentos metros lavados por choro e barro que escorriam pelo ferro branco das traves. A torcida por vezes gritava cânticos ao Grêmio e sua história, a mais nobre do mundo, e por vezes rompia num choro conjunto de emoção que elevava os ânimos dos que viam aquela procissão que carregava traves santas de um Estádio ao outro. Milhares de torcedores se juntaram aos cerca de quarenta mil que partiram da Azenha rumo ao bairro Humaitá, as margens da Free-Way no outro canto da cidade.
          Quando lá chegaram, as portas se abriram para os torcedores e também para os jogadores que de forma heróica davam seu sangue para ajudar naquela via crucis do futebol. Repórteres acompanhavam incrédulos aquele mais novo feito do time do Grêmio e faltavam-lhes adjetivos para falar do Tricolor Gaúcho Imortal. Imortal, ele provava ser mais uma vez. E as metas foram colocadas dentro da área tricolor e os jogadores e torcedores se juntaram no meio do gramado enquanto a chuva caia, e formaram um coro cheio de emoção, esperança e humildade, e cantaram juntos o hino do Grêmio:






“Até a pé nós iremos
Para o que der e vier,
Mas o certo é que nós estaremos,
Com o Grêmio, onde o Grêmio, estiver...”










Um jogo de estréia marcou a inauguração da Arena do Grêmio. Nacional do Uruguay e Grêmio, repetindo a inauguração do Estádio Olímpico....


 
 
 
 
OBS¹: Esse texto é uma OBVIA ficção.
OBS²: Fotos retiradas do site do Ducker (http://www.ducker.com.br/ )
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Grêmio 108 anos hoje, 15 de Setembro.

segunda-feira, 18 de julho de 2011

Literary High

Seimon Kandir, eu pensava sobre o holocausto. Enquanto a noite avançava triste sobre a rodoviária, sentada nos bancos da sala de espera. E Henry Quyuk também estava com sua despreocupação corriqueira sobre mutação genética, morros uivantes na Rússia, cumes inalcançáveis e histórias de avô. Gary Stand By esta parada com alguma preocupação no olhar, disfarçando com piadas sobre o tempo, o espaço, a viagem. Adam Pope esta tranqüilo com seu penteado e seu sorriso, e teme não sofrer de amor ou não dar risadas trágicas. Ele tem uma mochila carregada, com inclusive uma cômica panela pendurada (mais tarde seria a nossa salvação em uma madrugada pobre e faminta na beira de uma fogueira heróica). Alguém pergunta, “Woody Lee Jay, você não vai se despedir da cidade?”, mas é tarde demais, os motores já fazem barulho e fumaça suficiente para distrair qualquer atenção. Terminamos o cigarro coletivo e nos apertamos para perto do ônibus. Eu levo na mochila o indispensável para poucos dias. A barraca, duas garrafas de conhaque, o fumo (este ficou comigo, porque da última vez Stand By perdeu quase 30 gramas na praia sem explicação e ficamos todos remoendo aquele ódio perverso e tivemos que fazer drinks fortes com o que tivesse por perto; cachaça e limão, ou qualquer fruto que pudesse ser apanhado sem esforços), algumas roupas. S. K. guarda o LSD na bateria do seu celular e eu me pergunto se as interferências magnéticas não irão interferir no efeito do nosso ácido. E fico rindo da possibilidade da gente tomar e virar uns eletrodomésticos gigantes fazedores de causo! É uma chapação literária. E o tempo passa e eu penso sobre algumas “literary highs” como nos almoços nus lobaratoriais de drogas experimentais e venenos para baratas que os caras injetam. “é uma viagem kafkaniana, você se sente como um inseto”. Cara demais aquilo! Eu pensei sério vários dias sobre aquilo, e pensei em acordar como um liquidificador dentro da minha barraca. E de fato nossos cérebros automatizam com o tempo, nos transformam como máquinas. “eu preciso levar você para conhecer alguns rapazes da Interzone!”. Cara eu não caio nessa, nem vou fazer minha sessão diária a lá Guilherme Tell.


Mas dando seqüência aos fatos – e não fatos às seqüências – nós sentamos no ônibus para cruzar alguns poucos quilômetros e depois descer numa rodoviária vazia, escura, fria, deserta e suja (que só viríamos ‘habitada’ quando estivéssemos voltando da viagem, mas aí aquelas pessoas todas pareceriam seres extraordinários para nós) para esperar uma Kombi branca vir de uma estrada de terra e nos pegar, aí levariam aqueles chapados para um festival de música livre. Paz e amor. Onde? Acho um saco essa coisa de “paz e amor”, ou “festival de música livre”, não cola mais sabe? Nunca existiu isso. Stand falaria, se pudesse ler meus pensamentos “Paz e amor? É.. uh... só!”. E antes da Kombi chegar a gente deu boas vindas ao final de semana e fechou um baseado ultraprofissional, forte pra caralho que nos chapou junto com o conhaque que já começava a nos esquentar. E dentro da Kombi a gente dava risada de alguma coisa que alguém falou, mas na verdade caminhávamos para o escuro-infinito-ameaçador que nos engolia cada vez mais e era só mato ou escuro. Ou os dois. Também era de se esperar que as coisas dessem errado. E deram. Lentamente o tempo fechou e começou a chover vagarosamente sobre a nossa cabeça. Todos chapados, no escuro e no barro molhado tentavam montar uma barraca que eu nunca tinha visto antes. Eram incríveis seis barras de ferro entrelaçadas e difíceis pra caralho de se juntar. E veio mais gente nos ajudar, até que finalmente conseguimos terminar o trabalho, enquanto uma banda da Suécia tocava (uma música ruim demais, como todas outras que tocaram ali, mas aquela se destacava...).

“Woody Lee Jay, você não vai se divertir conosco?” dizia uma das árvores com sorriso onírico, e eu com a complacência dos seres vivos apenas olhei para seu rosto e a encarei. Aquele deserto verde musgo chapado e fechado com grades.... eu podia ver teias de aranhas nos pensamentos deles, montanhas de lama nas barracas deles, e eles circulavam no deserto molhado como heróis mostrando suas armaduras, enquanto eu me refugiava com S. K e os garotos numa cobertura agradável de madeira. Henry Q. se me passava o conhaque, Stand e Adam conversavam sobre amenidades. Alguma coisa ali me fazia lembrar um grande circo, não dos horrores, tampouco dos prazeres, um circo imaginário. Outra vez Bill Lee me diz “it’s a literary high!” e aquele veneno amarelo de barata acaba e ele precisa de mais.

Mas tudo é impermanente eu sei, e aquelas pessoas se apegam a uma fantasia falsa. Eu só me divirto com os garotos, pulando em poças de lama. E como o anjo da desolação eu viajo do céu para casa, eu estive no inferno e sei tudo sobre o holocauso. Seimon junta fôlego com sua melhor roupa e se decompõe friamente em barro espacial, geléia matinal – bosta. Viagens de ácido. Não preciso entrar na parte das ‘trips’, não preciso entrar nos confins escuros da mente também, para dizer o que existe lá. Nada. Essa é nossa vida, nossa (in)verdade e essa foi nosso entretenimento passageiro. Como Adam e seu cabelo escovado no primeiro dia, e como ele ficou maltrapilho e sujo no último dia, enquanto a gente voltava por uma cidade pequena e bonita do interior. Pequenos fatos juntos da nossa amizade, enquanto os outros nos vêem com olhares agressores e a gente da risada da folha voando pela rua. Nós somos bons amigos na verdade, explorando algumas cidades desconhecidas para descolar um pouco de diversão e não importam os conceitos ou as bases filosóficas que se enfiam no meio disso tudo. É só um tempo gasto com bobagens divertidas. E o tempo passa, mas não nos deixa mais solitário dentro de nós mesmo, porque nos alimentamos de lembranças.

sexta-feira, 15 de julho de 2011

Dr. Halam

- Tudo está caindo... e não haverá tempo para uma cúpula secreta negociar tratados de paz. Não serão também os acordos que irão importar, nem tão pouco as palavras jamais escritas. Tudo está caindo e está bem na sua frente. Como se estivessemos na frente de uma cachoeira curbana.

- Analíticos, críticos, ansiolíticos, verídicos, transcritos - monumentos erguidos, o mugido, o barulho dos gemidos, Dr. Halam, isso não te diz alguma coisa?

- Apenas produtos de nossa constante fome de produção...

- Se estivessemos mesmo caindo a metafísica não explicaria tudo isso e sua grande tese não estaria - ela sim - caindo por água a baixo?

- Na ficção pré-socrática, nas argilas do 1° mundo... talvez.

- Ficção pré-socrática?

- Tolices da antiguidade. Como a Internet hoje... ela também está caindo. A máscara oculta da submissão também está caindo. Como o gelo ártico...

- Eu estive pensando sob a sombra de uma tamareira árabe, à respeito do grande oceano grudado ao chão artificial que o senhor falou naquele artigo...

- "As veias do cérebro"

- Isso... e na minha concepção, se "aprendemos errados" e deixamos de entender certas coisas a respeito disso..

- Nossa concepção moldada aristotélicamente, você diz?

- Dr. Halam... onde você está?

- Na sua cabeça, Dr. Halam.

- Halam?

.....

"33#47/KV-****/33#2"

O código apareceu na tela, em destaque.

- Código inserido. O projeto pode parar, continuaremos amanhã. Insira outra dose do Elixir Paregórico no paciente #286.

- Quanto ao Desdobramento Mental?

- Imprima os resultados e deixe na mesa do Dr. Halam...

- Do Dr.... Halam?

Carregando o Elixir ele para confuso entre a porta e o paciente. O doutor deixa a sala já retirando o avental branco. O atira no chão..

"Dr. Halam"

Se lê no crachá amarelo.

E o funcionário bebe o elixir, lendo no seu crachá após sair da sala do paciente e do doutor.

"Halam"

.....

"33#47/KV-****/33#2"


- Transação aceita, o código foi inserido... iniciar Remodelação da Memória e alterar dados de Desdobramento Mental...

- Perfeito Dr. Halam!

segunda-feira, 11 de julho de 2011

Darma sujo de concreto

Lá estava a figura dele, flutuando sobre o lixo que entupia as calçadas. Cidade cinza e lágrimas de concreto. Óleo diesel nas escavações do coração de Judas Iscariotes. Um sorriso falso no reflexo do vidro embaçado, na noite luminosa das canções da geração perdida. Sete anos após a guerra, e os fantasmas ainda assombram os casarões vazios e frios onde circula o vento doentio da morte. Mentes frenéticas como Trensurb em ligações magnéticas de alta voltagem. Canos quebrados jorrando seu esgoto em direção ao caos matemático da grande cidade, no sonho luminoso do anjo da constelação líquida. Veias e venenos, soprando no cais do porto desde a saída da última embarcação, com serpentes no convés, se lançando ao mar de águas sujas sob um céu sem cor. Vidas e avenidas, se cruzando como um cérebro em conexões lentas com a realidade. Todos fadados ao fracasso, da prisão de gravatas à flanela colorida que abana ao carro de vidros fechados. Mentes subjetivas e olhos fechados ao acaso, subtraem a virtude para verem melhor as propagandas e o cinismo do sequestrador. Todos amontoados se acotovelando na selva de concreto sujo, pisando sobre o Darma dos sofredores telepáticos, buscando uma saída em cada esquina, para acordar numa cama de plumas e adormecer como tijolo de construção - enfileirados. Nesse ballet cotidiano a eternidade se confunde com os horários do metrô, e a virtude do honesto vagabundo se apaga nos passos apressados das pernas violentas e cegas que trituram o vazio. Darma apagado ainda soa baixinho no sinal de transito, sujo de concreto, na cabeça desnuda do locutor do cotidiano. Braços viajando no ar, mensagens presas na jaula do tigre - expulso das montanhas de Shangai, leve lembrança ainda presa numa garra afiada solta num buraco frio no seu peito.
Cidades em catarse para o anjo da desolação, num pouso triste deslocar sua asa. No último ato da tragédia cravado num abismo do Darma. Pouco para o anjo louco da cabeça de engrenagem. No entanto, leve e abstrato é o dia - num voô angelical pelas nuvens brancas de algodão... aos poetas da catarse.

sexta-feira, 8 de julho de 2011

Longo é o inverno...

Tivemos um longo e frio inverno, com o sol batendo fraco demais para esquentar nossas mãos, e com sombras tão geladas quanto escuras. Era o fim daqueles tempos inocentes, sentados ao anoitecer na frente do fogão à lenha enquanto a sopa chegava fervendo e nós sorriamos e o mundo nos sorria. Havia pão sobre a mesa sem toalha e aquilo nos dava certa segurança quanto ao café da manhã do dia seguinte. Sempre fomos pobres e no inverno sofriamos muito, mamãe trabalhava na casa de uma mulher que tinha um mercado e as vezes eu podia ir lá e comia algumas coisas diferentes. A rua sempre era um recomeço para nossas vidas, e eu via exemplos ruins de vida, coisas que eu não deveria seguir. E naqueles longos invernos eu andava pelo pátio da casa procurando o sol, até que me aquecesse o suficiente para amolecer um duro coração de gelo que ia se formando - moldado pelas constantes brigas com os vizinhos e as ameaças e os tropeços. Sempre olhava para o meu cachorro nos dias de mais frio, olhos serenos, calmos como uma criança satisfeita e uma expressão de leveza que eu jamais vi em nenhum lugar. E um pelo fino que me dava pena por imaginar que ele podia amanhecer congelado, ou coberto de geada. Mas sempre que eu acordava ele já estava muito mais disposto do que eu e me recebia alegre como se o frio não importasse tanto para um cachorro. E as vezes latia e eu sentava ao lado dele, ele era quase do meu tamanho, com patas enormes e brancas - e eu não conseguia entender o que ele queria me dizer. Sabe-se lá quantas coisas ficaram para trás. Anos depois ele morreu. Eu carreguei ele pra rua, mole, sem vida e com os olhos iguais dos dias de frio. Minha irmã abraçada em minha mãe chorando, meu avô nem quis muito ver, mas saiu com os olhos molhados para a rua. Ele foi enterrado no inverno e eu me senti vazio e triste. Pensei nas coisas que deixei para trás, no que eu não entendi dos seus latidos e enfim, ele partiu pra um buraco cavado na teerra vermelha perto da minha casa. Assim foram se estendendo os anos, sempre com sonhos, frustrações, invernos e verões. E enquanto se cresce não se nota muito esse turbilhão de coisas que acontece em um segundo - mas nossa cabeça pura esta crescendo e convergindo para um fim burocrático e didático, sendo podada de qualquer sentimento puro que possa se guardar. E é assim, os invernos se estendem em longas sombras frias e os nossos cães de estimação morrem e vão para buracos fundos na terra, sem a menor explicação do que queriam dizer com seus latidos. Então partimos suaves para o fim da inocência, acumulando curativos e remendos em nossas fraquezas, como a marcha fúnebre dos animais mortos. Um amigo meu enterrou um coelho no pátio dele, e um dia seu cachorro desenterrou e terminou com o coitado. Os restos sujos de sangue e barro foram parar na cozinha, enquanto eles não estavam por ali. Coelhos não devem ser enterrados simplesmente no fundo do pátio, eu sabia isso ainda naquela época e eles tiveram uma frustração enorme com o cachorro que já havia mordido um gato. E no fundo amarguramos nossos invernos e nossas perdas, com a esperança do fino raio de sol nos alcançar. Sentados a beira da estrada, moldando como um barro nossa história e nossos movimentos tristes. Quando nos vemos no espelho e ja não somos mais como naquela velha três por quatro é sinal de que já se passou muita coisa, mas nossos olhos permaneceram serenos e calmos, como os de uma criança satisfeita para sempre, até o dia em que o inverno não mais importar.
Mas os longos e frios invernos continuam e eu pergunto às nuvens negras quando o raio de sol irá nascer - mas em algum lugar ele brilha, ele sempre irá brilhar. Telepaticamente saberemos para onde olhar, com nossos olhos desnudos de feitiços do cotidiano, com o ar sereno dos cães, a inocência das crianças pobres...

E Arnaldo Baptista termina isso como um "Raio de Sol"

"Tô sentado ao lado da estrada,
esperando por um raio de sol
Acho que faz muito tempo,
desde que eu me mandei
Eu costumava ter um bom coração
então eu dise pra mim "qual é a tua cara?!"
Últimamente tenho mudado muito
vou tentando me entender,

Pois vou cavalgando nessa vida,
esperando nosso amor vencer
Minha cara vou pra casa logo,
Não se desespere pois ja ia te pegar

Tô indo para o sul de carona
Puxa se eu tivesse a moto!
O visual parece me ajudar
nessa minha empreitada
Sorte vai ter nosso filinho
quando ver você de novo, amor
Vamos ter nosso ranchinho
e ir pro sul de carona...."

terça-feira, 5 de julho de 2011

Frio do sul

Porto Alegre. Tem um prédio sujo a minha direita, que eu vejo pela janela quebrada e que se mostra através da cortina rasgada. E não é isso que aparece nas propagandas da tevê. Mas eu prefiro assim e as vezes até contribuo para tua sujeira escrevendo pelos muros palavras insanas de amor e morte. Como numa canção bairrista que fala do frio do sul, ou como num conto de um pescador. Velho lobo do mar, que não sabe nada sobre amar uma mulher no frio. Ninguém há de saber. Enquanto a televisão anuncia, em vias de festa, que a sensação térmica já passou de 10 graus negativos e eu coloco roupas sobre roupas e achando tudo isso um grande ridículo vestuário, as mulheres dançam no fogo das lareiras ao redor de nossas mentes desarticuladas. E o café nos serve de estímulo, a fome de aviso e a geada cai provocante sobre nossos capotes escuros. Então num trem, nesse vagão solitário, em uma viagem melancólica o frio penetra nos teus pensamentos e você imagina aquele velho vinho de anos atrás. Aí novamente algo te persegue e se mistura com a neblina no ar. Está tudo ali, soprando ao redor da sua cabeça, como em flashes luminosos, tipo quando atravessamos a cidade de noite e os anuncios de motéis brilhavam como nunca, e os carros passavam e deixavam seus espectros coloridos e até as luminárias eram mágicas. Fontes inesgotáveis de energia pura e limpa. Mas tudo tem seu preço. E o frio do sul não é uma criança ingênua brincando de matar formigas com uma lupa. Então os loucos incendiários e os fazedores de causos, com suas mentes deflagradas pela consciencia telepática, se voltam contra a História e as propagandas e os anúncios de tevê. "Diamantes Telepáticos" é o que buscamos nos tornar. Luz em becos criminosos. Saúde em clinicas psquiatricas. Na luta com o frio, a angústica, o emprego, o dinheiro, as placas, os desejos, os normais, os abstratos, os covardes, as chaleiras com água quente. Como num gole sofrido de um mate amargo.

quarta-feira, 1 de junho de 2011

Meu grande problema zen

Manhã fria e úmida de Porto Alegre, eu te pergunto quanto vale a vida nessa carcaça metálica e apertada, com mais 68 passageiros, todos com frios, pensamentos e decadências particulares. Eu me afundo numa poltrona revestida de algo imitando couro, 6 e 40 da manhã e ainda estou digerindo o pão com presunto e o café preto com leite morno. E todos aqui estão dançando agarrados em suas rotinas, há gordas, magras, ruivas, sedentários, jaquetas jeans, calça suplex. Todos parados, inertes... e se movimentando. Como? manhã cinzenta eu te pergunto, como? As nuvens recuam, avançam, se juntam, se transformam e caem em gotas d’agua fria. Motivo próprio, particular, o circulo vital do oxigênio. Vontade própria, por sua própria vontade. A folha se desprende levemente do galho da árvore, desliza no ar como se ele a amparasse durante a queda e cai no chão mole como uma fatia de queijo. E se você passar por ela no chão, não imaginará que ela já fez parte daquela imensa árvore ao seu lado. Você é capaz de respeitar mais aquela árvore do que aquela folha. E ela se recosta no solo, absorve energia, entrega as suas e renasce, esbravejante, leve, no galho de outra árvore. O tronco da árvore ligado ao solo por uma raiz tão viva e firme se locomove ao longo dos anos e se ele cair vai rolar e terminará em algum lugar. Para depois se transformar em outra coisa. E mesmo se você o cortar, depois atirá-lo numa fogueira, ele queimará, queimará, e o aquecerá e depois de queimar subira ao céu em forma de fumaça e depois retornará ao solo em forma de uma chuva iluminada, e você será obrigado a usar um guarda-chuva barato porque não quer se molhar. Mas você é água, se molha todo dia, anda por aí respirando água e usa guarda-chuvas.
As avenidas ficam cheias nessas horas da manhã, você tem que estar aqui para ver, eu dou risada sozinho com meus pensamentos harmoniosos, é tão engraçado como as coisas vão se encaixando. Como na noite em que eu passei em claro e no meio da madrugada vi o céu vermelho, e não tinha nenhuma estrela ali, não tinha nenhuma lua, apenas nuvens vermelhas naquele céu durante a madrugada. E tudo se encaixava na mais perfeita harmonia, o silêncio, o vento leve – as coisas convergiam para um fim onisciente e coletivo e eu estava sendo levado, quase que para fora da janela do meu quarto, enquanto lia Kadish de Ginsberg e tinha imagens de um enterro judaico. Eu imaginei Allen Ginsberg olhando o céu vermelho da madrugada, lamentando os anos perdidos. A loucura. E tudo se encaixava e eu estava voando em espiral para o poema de Allen Ginsberg. Isso era só um ideal jovem e utópico, tipo quando você vê um garoto saindo do cinema “Juventude Transviada”, Marlon Brando nas idéias, On the Road na mochila.
Mas isso tudo não passa de meros entretenimentos, respostas obvias no vazio. E eu aqui com meu grande problema zen – quanto vale isso tudo? e como essas pessoas paradas, inertes, estão na verdade se locomovendo, indo para um lugar distante?

Minha grande resposta zen é: não olhe o ônibus.

Estamos sempre nos movimentando, a lua, a manhã fria, a folha, o céu vermelho da madrugada, Kadish, Ginsberg... estamos todos entrelaçados no parapeito do caminhão numa eterna viagem. Jamais deixamos de nos movimentarmos. A resposta virá soprando pelo vento, porque, olha só o que é o vento, um gigante que nos engole, penetra em nossos poros e sai, levando quem nós somos embora. E ficamos dentro do vento, e o vento dentro de nós – soprando por aí. Por isso minha intimidade com esse ônibus velho, de casca fina e metálica. Sempre foi ele a minha moradia, sempre estivemos viajando, soprando por aí. Só mudaram nossas bagagens. Tristezas em Porto Alegre, terror em Santa Catarina, satori nas esquinas, solidão em Cachoeirinha. Noites intermináveis dentro de mim. No vento.
E é tão engraçado o rosto das pessoas atarefadas com nada nesse vazio de ferro. Eu gostaria de escrever um poema sobre o som que sai dessas expressões tristes. Nós escutamos, pulamos no teto e sopramos no vento. E o ônibus para, as pessoas descem, as outras sobem e ali continuam seu movimento e ali continua o ônibus, no sentido contrario da morte. Porque movimento é vida.
Depois eu sigo pelo centro de Porto Alegre com meus dedos congelando enfiados dentro dos bolsos da jaqueta de jeans, mas tem um furo na mão esquerda e isso me incomoda seriamente. Seriamente.

segunda-feira, 30 de maio de 2011

Flecha ao Coração de Neal Cassady

Adormece sob a estrada férrea o último atirador, vaqueiro dos campos Elíseos que costura a carne com a linha de sua espada, a orquídea de ferro pomposo que carrega nas suas costas amassadas pelo sol e torturada por chicotes opressores. Esta morto ou descansa em um sono regular, em que a respiração não é precisa, nem mesmo a consciência para se estar em um momento de paz, já que teu semblante, embora triste, não me assuste, ou não assuste ninguém. Fora talvez o indelével massacrado, o azarado da estrada que pegou o caminho errada para chegar onde queria, o cara que fez seu próprio atalho e achou sua trilha do deserto. Foi a força bruta do teu pensamento que balançou toda essa trilha, toureiro sem espadas, que ridiculariza o poder com seu sarcasmo adolescente e fere o teu próprio peito, manchado pela pólvora, com as palavras enlouquecidas que saem da tua boca. Malandro desviado, que arranja a rota das estrelas e que salta de um avião em pleno vôo, te vejo neste trilho, já inchando pelo sol, embebido pela vodka e alucinado pela benzedrina que te deixava sem parar, sem descanso, mas agora vejo o seu preço, vejo que finalmente parou, e não foi para esperar um trem, embarcar e voltar pra Denver, foi pra outra viagem, tu foi para outra estação, e não avisou ninguém, não quis levar nenhum dos teus amigos, esqueceu da tua ex namorada e da vida lá do sul. O cara que não gostava de finais, que lutou contra a cega vontade dos pontos, das virgulas, das folhas, dos capítulos, dos parágrafos, que mergulhou nas letras de outros livros e se afogou como em um copo com vodka e benzedrina. Levou o teu olhar alucinado, sempre a frente da vaga realidade em que vivia, levou a tua voz desenfreada que mesmo sem saliva metralhava os ouvidos andarilhos, os ouvidos acusados. Permanece quente em lembranças, opaco em fotografias, permanece ainda nos ouvidos com tua voz, tua incansável corrida contra o tempo, tua fuga das autoridades, tua luta contra a mesmice, que todos um dia irão de enfrentar. Foi o coadjuvante calado daquela geração, o indomável tigre que rasgava o ferro com suas próprias unhas de aço e entrava num vagão desocupado para fazer do seu lar por alguns quilômetros e descia em cidades desavisadas, prontas para serem o teu alvo, serem assaltadas e enlouquecidas, totalmente fora de contexto com a tua verdade e permaneciam imóveis, cidades enegrecidas. Agora tem as carnes duras, uma face inexpressiva e atordoada pelos trilhos, afinal, escolheste bem sua cama, seu leito final, a espera de um trem para destroçar teu corpo e fazer dele parte também desta linha férrea, que tanto percorreste atrás de uma geração, que era impossível de encontrar, pois estavam todos perdidos também. Enfim, um longícuo adeus a Neal Cassady, o delinqüente juvenil sem aspirações para o futuro que traçou seu futuro, como nas linhas de On the Road, com uma geração perdida, uma geração fracassada, mas que nunca viveu devagar, que nunca viu o sol nascer desbotado mas sempre em caleidoscópios elétricos, que brilham incansavelmentes como estrelas explodindo, e que dormiam na velocidade da luz para ter os sonhos como suas realidades, que conheceram atrás de um volante, ou atrás do vidro de uma condução que pegaram sem pagar. E uma verdade desconfortante, tua morte.
 
 
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Antiga homenagem ao andarilho de Denver.



quarta-feira, 25 de maio de 2011

Viagem furada.

I used to care but, things have changed...


Então eu resolvi arrumar a mochila e dar o último telefonema. Esperei um homem de capote negro num beco escuro. 35 reais amassados no bolso do jeans. E enquanto um casal passava apaixonado eu me ocupava com sonhos de papel. Na manhã que o sol iluminou eu saltei pra fora com um café mal descido pela garganta. Aí somei as moedas e rodei sofridamente com meus amigos pra descolar duas conduções até o centro. E Porto Alegre estava como a bela adormecida nos contos de fadas. Aquele ar cansado dos dias de viagens. Me ocorreram algumas ideias, canções - "broken bibles... broken hearts..." - e a gente se apertou na rodoviária e escolhemos nossos assentos desconfortáveis e cruzamos talvez 200 ou 300 quilometros até o dia quase escurecer.
E nas horas seguidas, no caos mental em que a gente se encontrava, eu toquei Bob Dylan com meu violão atado com cadarço e preso as minhas costas e sussurei na gaita os acordes do terrível que estava por acontecer. Uma viagem furada, anunciada por canções desoladas de Bob Dylan. E dias depois eu retornei entorpecido pra casa, com meus tênis carregados por toda a poeira da estrada e nunca mais desejo retornar para aquele inferno mental.
De qualquer forma é uma boa homenagem ao cara que fez aniversário ontem. 70 anos.

sexta-feira, 20 de maio de 2011

Judas!

Eu estou sentado, andando, pensando, meditando, sendo um otário solitário que imagina uma revolução por segundo. Eu estou pensando sobre Bob Dylan porque eu estive escutando Bob Dylan. Não há porque eu esconder ou negar que sofro uma idiota influência da carreira artística deste senhor de 70 anos, - à se completar agora dia 24/05 - mas prefiro entender que isso é como uma salada de fruta, só que de carne. Com as entranhas e as vísceras do cara e algum tempero tropical e pitadas latinas, com cobertura oriental e óleo pútrido das ruas.
Tenho só que me concentrar um pouco, terminar meu trabalho, ir embora. Isso é uma tarefa árdua. Tento me alienar um pouco dessa situação toda, mas eu passo os olhos no jornal, eu ouço o burburinho do corredor, eu entendo um pouco mais acerca deles e eu vejo a estupidez nadando nas águas subterrâneas do serviço público.
Olho pra janela e tem um sol de inverno batendo legal nas árvores que balançam com o vento e eu trancado ao som de conversas paralelas sobre greve, planejamento, metas. E eu olho para meus tênis, que trazem as marcas de várias estradas e de vários caminhos sem sentido e não consigo entender o porquê disso. Será que eles caminharam tanto assim para saber como é o mundo lá fora? Fora dos esgotos?
Pediria meu violão e minha gaita, minhas canções e um bom tempo de descanço agora. Sem remuneração. Sem encomodação. Mas com seguro contra acidentes e um pouco de crédito na praça, pra poder me ligar mais nisso tudo. Só que eu não ligo a mínima pra o que eles estão fazendo lá dentro.
Eu realmente não ligo a mínima pra tudo isso, eu simplesmente não me importo. Tento não ler jornais, tento conversar de politica na lanchonete, tento não dizer "olá, tudo bem companheiro?" para os comunistas.
Só fico cansado as vezes dessa carnifinica. Mas aprendi a nadar numa pscina de sangue. Sou meu próprio colete salva vidas.
Feliz aniversário Bob Dylan, me convide pra um show seu. Não é assim que as coisas funcionam? Eu estou cansado de me sentir encomodado com a televisão também.

quinta-feira, 12 de maio de 2011

Desafiar os senhores da vida e da morte

Não há o que fazer com vocês. Porque vocês não são livres pra escolher o que realmente querem - eu sei que a culpa não é somente de vocês. Mas se sobe uma fumaça branca e suas ideias clareiam vocês se assustam e se fecham, e se alguém discorda de vocês  vocês se guardam e se trancam numa moral cega, girando num espaço infinito com trezentas constelações ofertadas à vocês na volta. Acostumaram-se a obedecer, isso é o que há. Eu não sei o que fazer com vocês. Eu enxergo tudo que tentam esconder de suas próprias mentes e é isso que me faz entender suas jogadas... mas eu pensava que estava um passo a frente de vocês e recebi uma rasteira - por trás. Porque não querem mudar, são reacionários com fantasias de revolucionários. Apostam na mesma estética, porque essa mesma estética já vendeu na semana passada. Mas só um trouxa vai ouvir a estética da semana passada, ou vocês reviram jornais velhos pra ler? Eles fazem parte dessa corja culta que ocupa os bares e os cafés e dizem que sociedade é um conceito livre que a gente cria na cabeça. Mas em cada beco escuro eu vejo uma mãe triste segurando seu filho e ela não acha isso. Porque vocês são reacionários.
Eu dei as minhas visceras nesse projeto que lhes apresentei, revolucionei as minhas ideias,compus, pedi dinheiro emprestado, faltei com respeito a quem merecia ser desrespeitado, fiz o que tinha que ser feito por mim, o que eu realmente queria mostrar. Eu queria mostrar para as pessoas que elas podem se expressar livremente e o que aconteceu foi o contrário. Um bando de gente estúpida se apresentou mostrando a mesma forma de se fazer música a 50 anos atrás, apenas com um belo rótulo novo e uma cartada de sorte na burocracia. Eu não tenho saco nem pra ver vocês sorrindo na calçada da fama, mas espero que sorriam. Porque assim como os culpados e traidores, os Judas e os Pilatos, vocês terão as suas glórias roubadas no passar da história e eu quero assistir esse tombo feio de vocês.
Rock'n'Roll? Eu sou o anjo da inquisição que quero roubar as suas guitarras elétricas e estourar seus tímpanos com meu grito visceral de ódio ao vício de vocês. O vício de se corromper por coisas tolas, o vício de se corromper por mediocridades ignorantes que só servem para acumular a mesma e velha ideia num saco de farinha estragada com a validade vencida e prorogada até o próximo mês. Eu sou o zumbido que vai ecoar desafinado no hall da fama onde vocês vão se esconder de mim e de todas as pestes podres da rua. Não há desafio no que vocês propõe, não há novidade em todo esse teu Rock'n'Roll.. não há tragédia nessa absurda comédia real.
Uma simples tentativa de dizer que as pessoas são livres pra falar o que quiserem com o que elas tiverem na mão, uma simples tentativa de organizar um pouco essa flatulência de ideias diferentes que eu vejo na rua... de querer somar um pouco mais a essa mediocre cena musical que a gente se insere, e vocês cortam assim? Simplesmente censurando um grito incapaz de censurar? Isso não é fácil de aturar, e épor isso que yo nada sei.
Sei que existe uma regra, "faça rock'n'roll, ligue sua guitarra, toque blues, critique alguém", sim eu sei bem, mas não consigo obedecer como vocês. Eu não vou parar aqui, eu tenho um suspiro mórbido nos meus lábios e farei que vocês escutem. Tenho ganas de chorar quando vejo suas ideias e concepções, se afogando simplesmente num copo de cerveja e se achando um deus do underground das ideias. Mas eu sei que a vida não vale nada, nada disso que vocês pensam. Já olhei todas as estrelas e nenhuma canção de vocês mudou a rota ou o brilho delas, se eu tivesse um cavalo agora ia seguir por um campo verde e ainda coberto por geada. Com gauche, como livre, como todos deveriam ser. Mas me reguardo aqui na minha querência, e espero que vocês não se encomodem com o barulho e as farpas. Tenho uma lanterna acesa na minha cabeça e um canivete na ponta do coração. Eu vou esperar dentro de um baril de pólvora...
E a todos os índios e os cavalos sem sorte que por essas bandas se cruzam e compartilham de ideias libertarias, peço força e luz, que nossas chamas nunca se apaguem e que nosso calor se mantenha maior do que essas balbucias facistas dos senhores de porra nenhuma. Eu sou livre e eu tenho tudo que preciso dentro de mim, como uma paisagem campestre.
E o Vitor Ramil me completa:

Semeaura 

Nós vamos prosseguir, companheiro
Medo não há
No rumo certo da estrada
Unidos vamos crescer e andar
Nós vamos repartir, companheiro
O campo e o mar
O pão da vida, meu braço, meu peito
Feito pra amar.


Americana Pátria, morena
Quiero tener
Guitarra y canto libre
En tu amanecer
No pampa, meu pala a voar
Esteira de vento e luar
Vento e luar

Nós vamos semear, companheiro
No coração
Manhãs e frutos e sonhos
Pr'um dia acabar com esta escuridão
Nós vamos preparar, companheiro
Sem ilusão
Um novo tempo, em que a paz e a fartura
Brotem das mãos

Americana Pátria, morena
Quiero tener
Guitarra y canto libre
En tu amanecer
No pampa, meu pala a voar
Esteira de vento e luar
Vento e luar


Minha guitarra, companheiro
Fala o idioma das águas, das pedras
Dos cárceres, do medo, do fogo, do sal
Minha guitarra
Tem os demônios da ternura e da tempestade
É como um cavalo
Que rasga o ventre da noite
Beija o relâmpago
E desafia os senhores da vida e da morte
Minha guitarra é minha terra, companheiro
É meu arado semeando na escuridão
Um tempo de claridade
Minha guitarra é meu povo, companheiro


Americana Pátria, morena
Quiero tener
Guitarra y canto libre
En tu amanecer
No pampa, meu pala a voar
Esteira de vento e luar
Vento e luar



E como o Fogaça disse, "vento negro varrerá o que houver no chão"

quinta-feira, 28 de abril de 2011

Eu não sei como ficar calado

Essa é nova, América do Sul, estou atolado até o pescoço e nadando pra sobreviver, e ainda tenho 782 regras novas para decorar e tenho um mandato jurídico à espera na minha porta e tenho novos líderes escolhendo por mim. Há os críticos das revistas de tiragem nacional e eles escrevem apenas o que gostam de ler. Servem uma bandeja nacional para boa parte da população, e eu vivo no Brasil e o Brasil não me serve como uma nação. Eu as vezes regurgito meu café da manhã nas contracapas dos jornais, nos editais de edições dominicais e nos babacas engravatados que aprisionam nossas ideias. Talvez até o próximo ano, no Brasil, entrem duas ou três novas tendências de direita. O governo é vermelho como uma bandeira comunista e os comunistas são tão malvados quantos os capitalistas. Eles formam um belo circo entediante e colorido. Como calças da nova moda. Esse país de ideais envelhecidos me obriga a cumprir solenemente com meus deveres, mas não se preocupa se meu instestino funciona regularmente, nem se vou acabar me limpando na bandeira nacional, por falta de papel. O que eu ganho em troca? Eu vi assaltos, eu vi assassinatos, eu vi acidentes em vias públicas, e eu vi dinheiro sendo desviado, eu vi inconformismo no olhar dos transeuntes mas ninguém faz nada. Porque somos uma nação unida, não é mesmo? Porque nos importa muito chegar em casa e ligar o televisor na audiência barata dos telejornais e ver quantas pessoas morreram e fazer as contas para ver quanto tempo falta até chegar nossa vez. Eu estou tossindo e não sei se estou gripado ou se estou doente, mas eu vou marcar consulta e esperar na fila do SUS. Algum político teve a genial ideia de pagar médicos com dinheiro público para a população ser atendida de graça. Mas eu duvido que ele já tenha sido atendido num desses hospitais. E a carne que eu compro no mercado é escura, ela reflete, talvez, a podridão desta corja de assassinos engravatados? Wall street, Brasilia, Palácio Piratini, - a cena do crime. Mas o crime está nas ruas, nas favelas, não é mesmo Sr. Secretário de Segurança Pública? Eu irei passear despreocupado pelas ruas e se for assaltado, gostaria de que o senhor assistisse e me dissesse quais são os motivos. E eu perguntaria ao seu filho se ele acharia graça de ficar sem comida por alguns dias e ver sua mãe vendendo o corpo numa esquina suja e fria na madrugada. Mas o Brasil é maravilhoso. O Brasil tem dinheiro e vai sediar uma Copa do Mundo. Hoje é recém segunda-feira, tem muita coisa pela frente. Jesus morreu crucificado, Getúlio com uma bala na cabeça e os indigentes morreram pelo frio, pela miséria e pelo fogo. E nenhum deles entrou pra história. A sociedade não é o reflexo de seus homens. Não é o reflexo de quem nela vive. Porque eu não vi ninguém flutuando nas aguas poluídas, eu não vi ninguém colocar uma bala na cabeça e entrar pra história. Eu só tenho minha liberdade de respirar e consumir enlatados americanos. Eu não posso entrar em um super mercado e comprar um pedaço de queijo só com minha boa aparência, como 'Carlo Marx' me falou, posso? Só vejo as sombras dos comandantes, suas assinaturas, seus papéis mofados, suas ideias empoeiradas, suas cadeiras marcadas com o desenho de suas bundas, suas secretárias ocupadas com esmalte, tinta pra cabelo, fitas adesivas. A sociedade evolui para um dilema primitivo, o Brasil vai começar a furar suas terras para extrair petroleo e vai vender isso ao resto do mundo. Isso é tudo que podemos fazer? Estamos perdidos.


E nós todos estamos calados, bancando invejosos, olhando as janelas dos automóveis não ocupados, fechadas. E quem não tem como comprar deve roubar, quem não tem uma vida feliz, deve tirar a felicidade de outro. Olho por olho e dente por dente, é nossa sociedade evoluindo para um dilema primitivo. É a gente gastando dinheiro em computador, tecnologia. E as pessoas se 'arquivando' em apartamentos minúsculos sem nem saber quem vive a 12 metros de distância. Pegue uma arma, invada uma escola e faça sua própria revolução.

América do Sul.. do velho sonho de liberdade e paz.

sexta-feira, 15 de abril de 2011

SATORI DO ANJO DA DESOLAÇÃO

Anjo da desolação..

Eu não vi tuas noites solitárias em Big Sur, nem tampouco outro ser te visitou. Trinta dias choveram e trinta dias fizeram sol. Há amigos meus esquecidos em tuas garrafas diárias? Um velho caminha de sobretudo escuro pela esquina, as seringas se acumulam nas vias expressas da cidade. Enquanto se vende cafés e se lêem diários nas bancas que protegem da chuva. Em teus pensamentos mais tristes, Sidarta atravessava um raio de luz e te concebia o satori. Sentado sobre a montanha contemplando o infinito e o infinito te contemplando. Longe da política dos humanos e das convenções numéricas, astrais, apocalípticas. Zen. Um anjo da desolação que pousou com as asas pegando fogo sobre uma montanha iluminada, e que caminhou nas ruas tristes de madrugada enquanto o pastor pregava no meio da multidão. E sobreviveu a benzedrina, a máquina de escrever, sobreviveu a Calo Marx, Old Bull Lee. Que perambulou e adormeceu ao lado de Dean Moriarty. Descansou no paraíso triste e tomou uísque na traseira de caminhões que ferviam gasolina nos motores. E Sidarta te concebeu a luz e tu rodou como um samana mendigando e queimando teu corpo no sol.
Mas longe de toda luz, o vagabundo apodrecia em Denver. Longe de toda luz ele estaria se salvando em uma esquina qualquer, e enlouquecido gritaria por doses cavalares de lithium. Old Bull Lee e suas técnicas de farmácia. Saudações e suicídios no hall de entrada da cidade. O som da ambulância ecoando na sala mortuária, uma tarifa a ser cobrada. Corações estilhaçados, garrafas quebradas. E Sal deslizando triste sem luz, sem Sidarta, longe de satori, pelas esquinas amarelas da cidade. Big Sur - a luz está em Big Sur. Crepúsculo dourado nos olhos incandescentes do vagabundo deitado na beira do mar. Renaldo and Clara atrás do trovador solitário, a luz mística e surreal iluminando seu rosto na frente do lago. O anjo da desolação está sentado no ombro de Renaldo. Cinderela está passando assombrada pelo hall de entrada. Não há nada para ser comentado, mas algum crítica levanta sua caneta. Mr. Jones almoça contracultura ao meio-dia. Seu relógio exato aponta as horas em três capitais diferentes do mundo. E Sal está no paraíso, calculando a distância da próxima parada. Luta árdua para atravessar a rua. Ele está com o pé no lado escuro da estrada, sem pensar duas vezes, seu caixão já foi encomendado. E bebe constantemente para esquecer que estava esquecido um mês atrás e agora é lembrado como um gênio nas ruas e nas universidades, e nos bares, e nos hotéis e quem um dia lhe deu carona conta histórias terríveis sobre seus hábitos de pedir carona. Onde as pontes se cruzam e os fracos não tem vez. Guadalupe, New Mexico. Onde tu teve tuas visões cristãs. Supermercados da Califórnia, com Carlo Marx, um louco homossexual que andou com você e te chamava de gênio. Tudo álcool. Tudo falta de luz. Mas no cume mais alto destas montanhas, Canadá, as empresas de trem, guardas florestais, no clarão dos raios, no esquecimento do EU, na onipresença de tua luz; havia a iluminação. Satori do Anjo da Desolação, Sidarta e os seus.
O amanhã virá com luzes e raios de entendimento coletivo. Sad Paradise, satori nas palavras. Amanhã alcançaremos a luz e não importara o quão alto são os edifícios nem como nossa cabeça está enlouquecendo nessa fumaça corrupta da cidade. E o anjo da desolação desfila entre corpos nus na beira do Ganges, entre a poluição e a salvação, o contraditório nado dos corpos mortos no rio santo. Anjo da desolação enviado ao paraíso para mitificar nossa fé, na loucura, na inconsciência, em algo maior. Entre becos e alamedas, prostituas e carrinhos de bebês, fogo e óleo diesel, a iluminação repentina do nosso entendimento, sobre tudo e sobre todos. SATORI DO ANJO DA DESOLAÇÃO, acima de tudo.
Rest in peace, Sal Paradise....

"Pretendo rezar, também, como minha única atividade, rezar por todas as criaturas vivas; percebi que essa era a única atividade decente que sobrara no mundo. Estar no leito de um rio em algum lugar, ou no deserto, ou nas montanhas, ou em alguma cabana no México ou em um barraco em Adirondack, e descansar e ser gentil, e não fazer nada além disso, praticar o que os chineses chamam de "não fazer nada".


Todo entusiasmado, voltei para o mato naquela noite e pensei: "O que significa eu estar neste universo infinito, pensando que sou um homem sentado sob as estrelas na varanda da terra, mas na verdade sou o vazio e estou desperto naquele vazio e despertar de todas as coisas? Significa que eu sou vazio e estou desperto, e eu sei que sou o vazio, que estou desperto, e que não há diferença entre mim e todas as outras coisas. Em outras palavras, significa que eu me transformei na mesma coisa que tudo o mais. Significa que eu me transformei no Buda"." ....

Jack Kerouac em Os Vagabundos Iluminados(The Dharma Bums)... o 'satori' de Kerouac.

América de Allen Ginsberg

América, que horas acordará de teu sono profundo?
E teus navios afundados na segunda guerra, por que mares eles navegam?
E teus presos politicos?
Uma noite sonhei um sonho comunista, era 25 de dezembro.
América, esse ano a páscoa será mais cedo?
Eu não vi os expoentes de tua geração caindo bêbados na sarjeta
Onde estarão esses homens hoje?
Em tuas bibliotecas cheias de lágrimas?
América, eu gosto do Allen Ginsberg mas isso não quer dizer necessariamente que eu seja viciado
Por que vias circula teu veneno?
Eu já acordei de madrugada suando frio e chorando baixo, eu senti teu blues
Já li poemas magnificos sobre teus erros e teus encantos
Que horas mesmo irá acordar de teu sono profundo?
Porque eu trabalhei, e estudei, e caminhei por milhas, e vi o sol nascer e a noite acabar com ele, e eu não senti tua liberdade
Eu [ainda] não escutei a voz da liberdade
Eu não conheci teus direitos cíveis
Mas aqui estamos, América, New York, New York,
Com a lama até o pescoço
Dedilhando nas últimas cordas de nossa esperança
América, não vi nascer teus heróis, mas os vi mortos em guerras
Golfo, Iraque, Afeganistão, Líbia, Vietnã
A carne dos soldados americanos é tão frágil quanto a de um muçulmano,
As balas perfuram igual, talvez até com mais força, mais raiva
Allen Ginsberg, onde está sua América? Onde está você?
Eu te vi num sonho louco, dançando como uma chama viva
Nós procurávamos através do espaço a tua América perdida
América, alguns centavos, dois cigarros e os sonhos de Allen Ginsberg

terça-feira, 5 de abril de 2011

Última lástima ao Oriente

Adormence nestes serenos jardins Orientais minha lástima e minha falta de esperança com vocês.

Porque eu vi a fumaça atômica subir como um cogumelo e vi crianças pegando fogo enquanto corriam nuas por tuas avenidas destruidas. Eu vi a desolação nos olhos asiáticos e eu vi vocês reeguerem seu império apostando no mesmo veneno que uma vez os sucumbiu. Vi tuas terras balançarem e a agua engolir teus prédios de ultima geração, eu vi o fogo consumir os lares de crianças recém nascidas, e as mal nascidas, ainda nas barrigas de tuas mulheres, e vi abortos sendo feito para salvarem a população. Vi as guerras santas sem explicação derramando sangue inocente em terrenos arenosos, vi o deserto se encher de lodo e tristeza e teus camelos morrerem de fome, sede, frio e desolação. Vi seus ditadores chegarem ao poder com golpes militares e vi a população aguentar calada outra tomada de poder, eu vi computadores japoneses invadindo os mercados do mundo inteiro e vocês não ganharem nada com isso, eu vi trabalho escravo.
Agora fazem-se montanhas de cadáveres, lodo, terra, estilhaço, bomba, computadores, alarmes de seguranças, carros de bombeiros, e banheiros públicos em tuas vias. Mas Tóquio irá continuar, mesmo com a radiação, mesmo com a internet, mesmo com o risco nuclear. A Índia entrará em colapso populacional. O novo messias irá ancorar seu návio no Mar Morto, e o Mar Morto é o lar de todos vocês, porque eu não tenho pena do seu orgulho nuclear e eu não vou me desculpar quando o Ocidente apertar o botão da bomba. Eu espero que os inocentes se salvem e espero que a liberdade se estabeleça, mas vocês são porcos, como os porcos do Ocidente. E os donos do mundo devem apodrecer nos esgotos nucleares que eles mesmo cavam. Os donos do mundo possuem as armas e ditam as regras. A população conscente. Cada vez mais decrescente de ideias. Japão, engolido pela ameaça nuclear. Japão acabou de vez teu reinado. Eu não espero que você levante para construir mais usinas nucleares. Eu espero que o mesmo aconteça com os EUA. Eu espero que o Oriente corte a cabeça de todos os ditadores. Mas não resta mais esperança para vocês. Porque tuas crianças são treinadas para matar, elas dormem segurando um fuzil americano.

Última lástima ao mundo que conhecemos...


Os tempos mudaram

Uma corrida de ratos bem na minha frente, mulheres de corpete com sorrisos indecentes. Há um louco correndo solto no meio da multidão, e um cego comendo o fogo de sua mão. Apenas um cara solitário, cansado e com sua mente surrada, os tempos são outros isso ja não importa tanto.
Estou com a cabeça na forca e ainda bebo champagne, com os olhos ligados e com gosto de sangue. Vejo a chuva caindo no telhado, e poças d´agua em todos os lados. Alguns pulam enquanto eu me sinto tão cansado, e penso que definitivamente nada importa, os tempos mudaram.
Eles se esforçam tanto o dia inteiro, para procurar agulhas em palheiros. Há inocentes gritando enquanto morrem na guerra, e velhos de bengala da sala de espera. Mas meus olhos ja se cansaram dessa fotografia, sou um homem cansado e pra mim, pra mim os tempos ja mudaram.

Estão dançando bem na porta do paraíso, como caçadores atrás de sorrisos. Eles são a multidão ocupando todos os lugares, são como as baratas que habitam nossos lares. Macacos pegando fogo no convés, cheiro de pólvora ou talvez, outra discussão no porão. Pessoas caídas, mulheres reprimidas, tantas soluções para poucas alternativas. Há uma escada pro sucesso em algum lugar, mas está trancada e eu estou cansado de tentar.
Você pode machucar alguém sem nem saber, como uma pedra que rola e leva outras no caminho. Mas pra mim esse minuto pode demorar uma hora ou até mais, estou apenas sentado vendo o circo queimar. Só estou cansado demais para esperar, mas talvez eu já tenha sacado, sim, os tempos mudaram.

É melhor não se mover, esperar a cobra chegar. Eles estão na fila dando voltas no mesmo lugar. A mulher da minha vida saiu correndo com meu carro sem parar, eu deveria ao menos um pouco, com isso me importar. Mas estou cansado e sou um cara solitário, e além do mais, os tempos ja mudaram.
Uma confusão de bar e uma mulher caída no chão sem as roupas, eu deveria olhar para isso e sentir um pouco de compaixão, mas é tudo tão quente que se torna tão frio. Os corruptos são tantos que os nobres já estão sendo culpados.
As pessoas enlouquecem acreditando em uma mentira, o tempo passa devagar enquanto a terra gira. Eu deveria me importar com isso mas acho que estou cansado, afinal de conta, os tempos ja mudaram.
São crianças loucas com armas na mão, ou são cães raivosos pulando no portão? Uma mulher atraente me olhando no corredor, mas eu não preciso levantar daqui, ela morre antes do primeiro ato. Não sei se deveria me preocupar em não me interessar mais nesse tipo de situação, afinal os tempos mudaram e não existe mais lugar para ação.
Eu olho todos os dias os aviões decolando, na janela reflete o som dessa cidade aumentando. As pessoas ficam louca nesse tempo estranho, aumentam os poderes, diminuem as soluções. Eu não me importo porque ja estou cansado. A minha verdade é uma moeda com dois lados. Estou ligado demais na realidade para me importar, os tempos mudaram o que eu vou fazer?

sexta-feira, 4 de março de 2011

Eu te vi, Júlio Reny...

Eu te vi, Júlio Reny. Tu ainda usa aqueles óculos escuros dos filmes dos anos 60, e teu rosto não esconde as feridas da tua alma. No case surrado tem teu violão modelo Elvis Presley, ou um modelo das tardes de outono de setenta e três. Cinza como os prédios daquele canto sujo da capital, Porto Alegre é teu lar, porque eu vejo isso nos teus passos, e tu caminha como se estivesse em casa. Ao encontro da janela pra jogar as cinzas do cigarro, junto com tuas frustrações. Ninguém te reconhecia naquela tarde, então tu podia caminhar com certo ar de tranquilidade. Mas atrás das lentes sei que bate um coração descompassado, e que teus sapatos surrados levam a poeira de mil lugares. Tua jornada não parecia simples, seguir a linha reta da calçada até o outro lado da rua, até dobrar uma esquina, mas esse era o espírito, e na desvantagem da vida tu passou e eu olhei pra trás e pensei:
"Eu te vi Júlio Reny.. o super herói existe enfim, não era ficção"

Atrás de luz...

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Piada Perigosa

Quanta coisa/você deixou passar
Olhando os prédios/e não para o céu?
Quantas vezes/você foi dormir
Sem saber/se era hora de deitar ?

Quantas armas/são necessárias pra vencer uma guerra?
Quantas vidas/são desperdiçadas em nome de uma guerra?
Quanto sangue/está rolando em nome de algum deus?
Quanta gente/morre de fome enquanto você cospe/no prato que come?

Isso é uma piada perigosa/sorte que você não entede
Isso é uma piada perigosa/tenho um sorriso falso pra essa gente

Quantos livros/você precisa ler
Para então/formar opinião?
Qual o deus/você vai acreditar
Para então/perseguir outro alguém

Qual o sentido/que você vê em cortejar o seu ídolo?
Onde está você/quando o dia começa a nascer?
Qual é a culpa/de morrer na cruz, esperando o pai?
Qual é a culpa/que Judas tem nessa história?

Isso é uma piada perigosa/sorte que você não entede
Isso é uma piada perigosa/tenho um sorriso falso pra essa gente


Gente que não dorme com o medo/de sonhar
Gente que não pensa com o medo/de errar
Gente que não canta com o medo/de desafinar
Gente que acredita em deus/antes de saber quem ele é
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Deixe a luz ligada para iluminar o sono de seu ídolo e no final do mês pague a conta e se sinta agradecido pela imensa demonstração de carinho. Os fracos servirão. Siga seu modelo, entre na forma, seja moldado, don't try, no doz... seja o homem no subterrâneo comendo carne fria só porque o jornaleiro da esquina falou. O que o torna otário, é não saber quando está sendo enganado, porque a verdade é uma traição dos homens e não existe dinheiro, grana e fama sem mentira. 
Enquanto isso eu tô no porão misturando medicamentos...