quinta-feira, 28 de abril de 2011

Eu não sei como ficar calado

Essa é nova, América do Sul, estou atolado até o pescoço e nadando pra sobreviver, e ainda tenho 782 regras novas para decorar e tenho um mandato jurídico à espera na minha porta e tenho novos líderes escolhendo por mim. Há os críticos das revistas de tiragem nacional e eles escrevem apenas o que gostam de ler. Servem uma bandeja nacional para boa parte da população, e eu vivo no Brasil e o Brasil não me serve como uma nação. Eu as vezes regurgito meu café da manhã nas contracapas dos jornais, nos editais de edições dominicais e nos babacas engravatados que aprisionam nossas ideias. Talvez até o próximo ano, no Brasil, entrem duas ou três novas tendências de direita. O governo é vermelho como uma bandeira comunista e os comunistas são tão malvados quantos os capitalistas. Eles formam um belo circo entediante e colorido. Como calças da nova moda. Esse país de ideais envelhecidos me obriga a cumprir solenemente com meus deveres, mas não se preocupa se meu instestino funciona regularmente, nem se vou acabar me limpando na bandeira nacional, por falta de papel. O que eu ganho em troca? Eu vi assaltos, eu vi assassinatos, eu vi acidentes em vias públicas, e eu vi dinheiro sendo desviado, eu vi inconformismo no olhar dos transeuntes mas ninguém faz nada. Porque somos uma nação unida, não é mesmo? Porque nos importa muito chegar em casa e ligar o televisor na audiência barata dos telejornais e ver quantas pessoas morreram e fazer as contas para ver quanto tempo falta até chegar nossa vez. Eu estou tossindo e não sei se estou gripado ou se estou doente, mas eu vou marcar consulta e esperar na fila do SUS. Algum político teve a genial ideia de pagar médicos com dinheiro público para a população ser atendida de graça. Mas eu duvido que ele já tenha sido atendido num desses hospitais. E a carne que eu compro no mercado é escura, ela reflete, talvez, a podridão desta corja de assassinos engravatados? Wall street, Brasilia, Palácio Piratini, - a cena do crime. Mas o crime está nas ruas, nas favelas, não é mesmo Sr. Secretário de Segurança Pública? Eu irei passear despreocupado pelas ruas e se for assaltado, gostaria de que o senhor assistisse e me dissesse quais são os motivos. E eu perguntaria ao seu filho se ele acharia graça de ficar sem comida por alguns dias e ver sua mãe vendendo o corpo numa esquina suja e fria na madrugada. Mas o Brasil é maravilhoso. O Brasil tem dinheiro e vai sediar uma Copa do Mundo. Hoje é recém segunda-feira, tem muita coisa pela frente. Jesus morreu crucificado, Getúlio com uma bala na cabeça e os indigentes morreram pelo frio, pela miséria e pelo fogo. E nenhum deles entrou pra história. A sociedade não é o reflexo de seus homens. Não é o reflexo de quem nela vive. Porque eu não vi ninguém flutuando nas aguas poluídas, eu não vi ninguém colocar uma bala na cabeça e entrar pra história. Eu só tenho minha liberdade de respirar e consumir enlatados americanos. Eu não posso entrar em um super mercado e comprar um pedaço de queijo só com minha boa aparência, como 'Carlo Marx' me falou, posso? Só vejo as sombras dos comandantes, suas assinaturas, seus papéis mofados, suas ideias empoeiradas, suas cadeiras marcadas com o desenho de suas bundas, suas secretárias ocupadas com esmalte, tinta pra cabelo, fitas adesivas. A sociedade evolui para um dilema primitivo, o Brasil vai começar a furar suas terras para extrair petroleo e vai vender isso ao resto do mundo. Isso é tudo que podemos fazer? Estamos perdidos.


E nós todos estamos calados, bancando invejosos, olhando as janelas dos automóveis não ocupados, fechadas. E quem não tem como comprar deve roubar, quem não tem uma vida feliz, deve tirar a felicidade de outro. Olho por olho e dente por dente, é nossa sociedade evoluindo para um dilema primitivo. É a gente gastando dinheiro em computador, tecnologia. E as pessoas se 'arquivando' em apartamentos minúsculos sem nem saber quem vive a 12 metros de distância. Pegue uma arma, invada uma escola e faça sua própria revolução.

América do Sul.. do velho sonho de liberdade e paz.

sexta-feira, 15 de abril de 2011

SATORI DO ANJO DA DESOLAÇÃO

Anjo da desolação..

Eu não vi tuas noites solitárias em Big Sur, nem tampouco outro ser te visitou. Trinta dias choveram e trinta dias fizeram sol. Há amigos meus esquecidos em tuas garrafas diárias? Um velho caminha de sobretudo escuro pela esquina, as seringas se acumulam nas vias expressas da cidade. Enquanto se vende cafés e se lêem diários nas bancas que protegem da chuva. Em teus pensamentos mais tristes, Sidarta atravessava um raio de luz e te concebia o satori. Sentado sobre a montanha contemplando o infinito e o infinito te contemplando. Longe da política dos humanos e das convenções numéricas, astrais, apocalípticas. Zen. Um anjo da desolação que pousou com as asas pegando fogo sobre uma montanha iluminada, e que caminhou nas ruas tristes de madrugada enquanto o pastor pregava no meio da multidão. E sobreviveu a benzedrina, a máquina de escrever, sobreviveu a Calo Marx, Old Bull Lee. Que perambulou e adormeceu ao lado de Dean Moriarty. Descansou no paraíso triste e tomou uísque na traseira de caminhões que ferviam gasolina nos motores. E Sidarta te concebeu a luz e tu rodou como um samana mendigando e queimando teu corpo no sol.
Mas longe de toda luz, o vagabundo apodrecia em Denver. Longe de toda luz ele estaria se salvando em uma esquina qualquer, e enlouquecido gritaria por doses cavalares de lithium. Old Bull Lee e suas técnicas de farmácia. Saudações e suicídios no hall de entrada da cidade. O som da ambulância ecoando na sala mortuária, uma tarifa a ser cobrada. Corações estilhaçados, garrafas quebradas. E Sal deslizando triste sem luz, sem Sidarta, longe de satori, pelas esquinas amarelas da cidade. Big Sur - a luz está em Big Sur. Crepúsculo dourado nos olhos incandescentes do vagabundo deitado na beira do mar. Renaldo and Clara atrás do trovador solitário, a luz mística e surreal iluminando seu rosto na frente do lago. O anjo da desolação está sentado no ombro de Renaldo. Cinderela está passando assombrada pelo hall de entrada. Não há nada para ser comentado, mas algum crítica levanta sua caneta. Mr. Jones almoça contracultura ao meio-dia. Seu relógio exato aponta as horas em três capitais diferentes do mundo. E Sal está no paraíso, calculando a distância da próxima parada. Luta árdua para atravessar a rua. Ele está com o pé no lado escuro da estrada, sem pensar duas vezes, seu caixão já foi encomendado. E bebe constantemente para esquecer que estava esquecido um mês atrás e agora é lembrado como um gênio nas ruas e nas universidades, e nos bares, e nos hotéis e quem um dia lhe deu carona conta histórias terríveis sobre seus hábitos de pedir carona. Onde as pontes se cruzam e os fracos não tem vez. Guadalupe, New Mexico. Onde tu teve tuas visões cristãs. Supermercados da Califórnia, com Carlo Marx, um louco homossexual que andou com você e te chamava de gênio. Tudo álcool. Tudo falta de luz. Mas no cume mais alto destas montanhas, Canadá, as empresas de trem, guardas florestais, no clarão dos raios, no esquecimento do EU, na onipresença de tua luz; havia a iluminação. Satori do Anjo da Desolação, Sidarta e os seus.
O amanhã virá com luzes e raios de entendimento coletivo. Sad Paradise, satori nas palavras. Amanhã alcançaremos a luz e não importara o quão alto são os edifícios nem como nossa cabeça está enlouquecendo nessa fumaça corrupta da cidade. E o anjo da desolação desfila entre corpos nus na beira do Ganges, entre a poluição e a salvação, o contraditório nado dos corpos mortos no rio santo. Anjo da desolação enviado ao paraíso para mitificar nossa fé, na loucura, na inconsciência, em algo maior. Entre becos e alamedas, prostituas e carrinhos de bebês, fogo e óleo diesel, a iluminação repentina do nosso entendimento, sobre tudo e sobre todos. SATORI DO ANJO DA DESOLAÇÃO, acima de tudo.
Rest in peace, Sal Paradise....

"Pretendo rezar, também, como minha única atividade, rezar por todas as criaturas vivas; percebi que essa era a única atividade decente que sobrara no mundo. Estar no leito de um rio em algum lugar, ou no deserto, ou nas montanhas, ou em alguma cabana no México ou em um barraco em Adirondack, e descansar e ser gentil, e não fazer nada além disso, praticar o que os chineses chamam de "não fazer nada".


Todo entusiasmado, voltei para o mato naquela noite e pensei: "O que significa eu estar neste universo infinito, pensando que sou um homem sentado sob as estrelas na varanda da terra, mas na verdade sou o vazio e estou desperto naquele vazio e despertar de todas as coisas? Significa que eu sou vazio e estou desperto, e eu sei que sou o vazio, que estou desperto, e que não há diferença entre mim e todas as outras coisas. Em outras palavras, significa que eu me transformei na mesma coisa que tudo o mais. Significa que eu me transformei no Buda"." ....

Jack Kerouac em Os Vagabundos Iluminados(The Dharma Bums)... o 'satori' de Kerouac.

América de Allen Ginsberg

América, que horas acordará de teu sono profundo?
E teus navios afundados na segunda guerra, por que mares eles navegam?
E teus presos politicos?
Uma noite sonhei um sonho comunista, era 25 de dezembro.
América, esse ano a páscoa será mais cedo?
Eu não vi os expoentes de tua geração caindo bêbados na sarjeta
Onde estarão esses homens hoje?
Em tuas bibliotecas cheias de lágrimas?
América, eu gosto do Allen Ginsberg mas isso não quer dizer necessariamente que eu seja viciado
Por que vias circula teu veneno?
Eu já acordei de madrugada suando frio e chorando baixo, eu senti teu blues
Já li poemas magnificos sobre teus erros e teus encantos
Que horas mesmo irá acordar de teu sono profundo?
Porque eu trabalhei, e estudei, e caminhei por milhas, e vi o sol nascer e a noite acabar com ele, e eu não senti tua liberdade
Eu [ainda] não escutei a voz da liberdade
Eu não conheci teus direitos cíveis
Mas aqui estamos, América, New York, New York,
Com a lama até o pescoço
Dedilhando nas últimas cordas de nossa esperança
América, não vi nascer teus heróis, mas os vi mortos em guerras
Golfo, Iraque, Afeganistão, Líbia, Vietnã
A carne dos soldados americanos é tão frágil quanto a de um muçulmano,
As balas perfuram igual, talvez até com mais força, mais raiva
Allen Ginsberg, onde está sua América? Onde está você?
Eu te vi num sonho louco, dançando como uma chama viva
Nós procurávamos através do espaço a tua América perdida
América, alguns centavos, dois cigarros e os sonhos de Allen Ginsberg

terça-feira, 5 de abril de 2011

Última lástima ao Oriente

Adormence nestes serenos jardins Orientais minha lástima e minha falta de esperança com vocês.

Porque eu vi a fumaça atômica subir como um cogumelo e vi crianças pegando fogo enquanto corriam nuas por tuas avenidas destruidas. Eu vi a desolação nos olhos asiáticos e eu vi vocês reeguerem seu império apostando no mesmo veneno que uma vez os sucumbiu. Vi tuas terras balançarem e a agua engolir teus prédios de ultima geração, eu vi o fogo consumir os lares de crianças recém nascidas, e as mal nascidas, ainda nas barrigas de tuas mulheres, e vi abortos sendo feito para salvarem a população. Vi as guerras santas sem explicação derramando sangue inocente em terrenos arenosos, vi o deserto se encher de lodo e tristeza e teus camelos morrerem de fome, sede, frio e desolação. Vi seus ditadores chegarem ao poder com golpes militares e vi a população aguentar calada outra tomada de poder, eu vi computadores japoneses invadindo os mercados do mundo inteiro e vocês não ganharem nada com isso, eu vi trabalho escravo.
Agora fazem-se montanhas de cadáveres, lodo, terra, estilhaço, bomba, computadores, alarmes de seguranças, carros de bombeiros, e banheiros públicos em tuas vias. Mas Tóquio irá continuar, mesmo com a radiação, mesmo com a internet, mesmo com o risco nuclear. A Índia entrará em colapso populacional. O novo messias irá ancorar seu návio no Mar Morto, e o Mar Morto é o lar de todos vocês, porque eu não tenho pena do seu orgulho nuclear e eu não vou me desculpar quando o Ocidente apertar o botão da bomba. Eu espero que os inocentes se salvem e espero que a liberdade se estabeleça, mas vocês são porcos, como os porcos do Ocidente. E os donos do mundo devem apodrecer nos esgotos nucleares que eles mesmo cavam. Os donos do mundo possuem as armas e ditam as regras. A população conscente. Cada vez mais decrescente de ideias. Japão, engolido pela ameaça nuclear. Japão acabou de vez teu reinado. Eu não espero que você levante para construir mais usinas nucleares. Eu espero que o mesmo aconteça com os EUA. Eu espero que o Oriente corte a cabeça de todos os ditadores. Mas não resta mais esperança para vocês. Porque tuas crianças são treinadas para matar, elas dormem segurando um fuzil americano.

Última lástima ao mundo que conhecemos...


Os tempos mudaram

Uma corrida de ratos bem na minha frente, mulheres de corpete com sorrisos indecentes. Há um louco correndo solto no meio da multidão, e um cego comendo o fogo de sua mão. Apenas um cara solitário, cansado e com sua mente surrada, os tempos são outros isso ja não importa tanto.
Estou com a cabeça na forca e ainda bebo champagne, com os olhos ligados e com gosto de sangue. Vejo a chuva caindo no telhado, e poças d´agua em todos os lados. Alguns pulam enquanto eu me sinto tão cansado, e penso que definitivamente nada importa, os tempos mudaram.
Eles se esforçam tanto o dia inteiro, para procurar agulhas em palheiros. Há inocentes gritando enquanto morrem na guerra, e velhos de bengala da sala de espera. Mas meus olhos ja se cansaram dessa fotografia, sou um homem cansado e pra mim, pra mim os tempos ja mudaram.

Estão dançando bem na porta do paraíso, como caçadores atrás de sorrisos. Eles são a multidão ocupando todos os lugares, são como as baratas que habitam nossos lares. Macacos pegando fogo no convés, cheiro de pólvora ou talvez, outra discussão no porão. Pessoas caídas, mulheres reprimidas, tantas soluções para poucas alternativas. Há uma escada pro sucesso em algum lugar, mas está trancada e eu estou cansado de tentar.
Você pode machucar alguém sem nem saber, como uma pedra que rola e leva outras no caminho. Mas pra mim esse minuto pode demorar uma hora ou até mais, estou apenas sentado vendo o circo queimar. Só estou cansado demais para esperar, mas talvez eu já tenha sacado, sim, os tempos mudaram.

É melhor não se mover, esperar a cobra chegar. Eles estão na fila dando voltas no mesmo lugar. A mulher da minha vida saiu correndo com meu carro sem parar, eu deveria ao menos um pouco, com isso me importar. Mas estou cansado e sou um cara solitário, e além do mais, os tempos ja mudaram.
Uma confusão de bar e uma mulher caída no chão sem as roupas, eu deveria olhar para isso e sentir um pouco de compaixão, mas é tudo tão quente que se torna tão frio. Os corruptos são tantos que os nobres já estão sendo culpados.
As pessoas enlouquecem acreditando em uma mentira, o tempo passa devagar enquanto a terra gira. Eu deveria me importar com isso mas acho que estou cansado, afinal de conta, os tempos ja mudaram.
São crianças loucas com armas na mão, ou são cães raivosos pulando no portão? Uma mulher atraente me olhando no corredor, mas eu não preciso levantar daqui, ela morre antes do primeiro ato. Não sei se deveria me preocupar em não me interessar mais nesse tipo de situação, afinal os tempos mudaram e não existe mais lugar para ação.
Eu olho todos os dias os aviões decolando, na janela reflete o som dessa cidade aumentando. As pessoas ficam louca nesse tempo estranho, aumentam os poderes, diminuem as soluções. Eu não me importo porque ja estou cansado. A minha verdade é uma moeda com dois lados. Estou ligado demais na realidade para me importar, os tempos mudaram o que eu vou fazer?