segunda-feira, 30 de maio de 2011

Flecha ao Coração de Neal Cassady

Adormece sob a estrada férrea o último atirador, vaqueiro dos campos Elíseos que costura a carne com a linha de sua espada, a orquídea de ferro pomposo que carrega nas suas costas amassadas pelo sol e torturada por chicotes opressores. Esta morto ou descansa em um sono regular, em que a respiração não é precisa, nem mesmo a consciência para se estar em um momento de paz, já que teu semblante, embora triste, não me assuste, ou não assuste ninguém. Fora talvez o indelével massacrado, o azarado da estrada que pegou o caminho errada para chegar onde queria, o cara que fez seu próprio atalho e achou sua trilha do deserto. Foi a força bruta do teu pensamento que balançou toda essa trilha, toureiro sem espadas, que ridiculariza o poder com seu sarcasmo adolescente e fere o teu próprio peito, manchado pela pólvora, com as palavras enlouquecidas que saem da tua boca. Malandro desviado, que arranja a rota das estrelas e que salta de um avião em pleno vôo, te vejo neste trilho, já inchando pelo sol, embebido pela vodka e alucinado pela benzedrina que te deixava sem parar, sem descanso, mas agora vejo o seu preço, vejo que finalmente parou, e não foi para esperar um trem, embarcar e voltar pra Denver, foi pra outra viagem, tu foi para outra estação, e não avisou ninguém, não quis levar nenhum dos teus amigos, esqueceu da tua ex namorada e da vida lá do sul. O cara que não gostava de finais, que lutou contra a cega vontade dos pontos, das virgulas, das folhas, dos capítulos, dos parágrafos, que mergulhou nas letras de outros livros e se afogou como em um copo com vodka e benzedrina. Levou o teu olhar alucinado, sempre a frente da vaga realidade em que vivia, levou a tua voz desenfreada que mesmo sem saliva metralhava os ouvidos andarilhos, os ouvidos acusados. Permanece quente em lembranças, opaco em fotografias, permanece ainda nos ouvidos com tua voz, tua incansável corrida contra o tempo, tua fuga das autoridades, tua luta contra a mesmice, que todos um dia irão de enfrentar. Foi o coadjuvante calado daquela geração, o indomável tigre que rasgava o ferro com suas próprias unhas de aço e entrava num vagão desocupado para fazer do seu lar por alguns quilômetros e descia em cidades desavisadas, prontas para serem o teu alvo, serem assaltadas e enlouquecidas, totalmente fora de contexto com a tua verdade e permaneciam imóveis, cidades enegrecidas. Agora tem as carnes duras, uma face inexpressiva e atordoada pelos trilhos, afinal, escolheste bem sua cama, seu leito final, a espera de um trem para destroçar teu corpo e fazer dele parte também desta linha férrea, que tanto percorreste atrás de uma geração, que era impossível de encontrar, pois estavam todos perdidos também. Enfim, um longícuo adeus a Neal Cassady, o delinqüente juvenil sem aspirações para o futuro que traçou seu futuro, como nas linhas de On the Road, com uma geração perdida, uma geração fracassada, mas que nunca viveu devagar, que nunca viu o sol nascer desbotado mas sempre em caleidoscópios elétricos, que brilham incansavelmentes como estrelas explodindo, e que dormiam na velocidade da luz para ter os sonhos como suas realidades, que conheceram atrás de um volante, ou atrás do vidro de uma condução que pegaram sem pagar. E uma verdade desconfortante, tua morte.
 
 
****************
Antiga homenagem ao andarilho de Denver.



quarta-feira, 25 de maio de 2011

Viagem furada.

I used to care but, things have changed...


Então eu resolvi arrumar a mochila e dar o último telefonema. Esperei um homem de capote negro num beco escuro. 35 reais amassados no bolso do jeans. E enquanto um casal passava apaixonado eu me ocupava com sonhos de papel. Na manhã que o sol iluminou eu saltei pra fora com um café mal descido pela garganta. Aí somei as moedas e rodei sofridamente com meus amigos pra descolar duas conduções até o centro. E Porto Alegre estava como a bela adormecida nos contos de fadas. Aquele ar cansado dos dias de viagens. Me ocorreram algumas ideias, canções - "broken bibles... broken hearts..." - e a gente se apertou na rodoviária e escolhemos nossos assentos desconfortáveis e cruzamos talvez 200 ou 300 quilometros até o dia quase escurecer.
E nas horas seguidas, no caos mental em que a gente se encontrava, eu toquei Bob Dylan com meu violão atado com cadarço e preso as minhas costas e sussurei na gaita os acordes do terrível que estava por acontecer. Uma viagem furada, anunciada por canções desoladas de Bob Dylan. E dias depois eu retornei entorpecido pra casa, com meus tênis carregados por toda a poeira da estrada e nunca mais desejo retornar para aquele inferno mental.
De qualquer forma é uma boa homenagem ao cara que fez aniversário ontem. 70 anos.

sexta-feira, 20 de maio de 2011

Judas!

Eu estou sentado, andando, pensando, meditando, sendo um otário solitário que imagina uma revolução por segundo. Eu estou pensando sobre Bob Dylan porque eu estive escutando Bob Dylan. Não há porque eu esconder ou negar que sofro uma idiota influência da carreira artística deste senhor de 70 anos, - à se completar agora dia 24/05 - mas prefiro entender que isso é como uma salada de fruta, só que de carne. Com as entranhas e as vísceras do cara e algum tempero tropical e pitadas latinas, com cobertura oriental e óleo pútrido das ruas.
Tenho só que me concentrar um pouco, terminar meu trabalho, ir embora. Isso é uma tarefa árdua. Tento me alienar um pouco dessa situação toda, mas eu passo os olhos no jornal, eu ouço o burburinho do corredor, eu entendo um pouco mais acerca deles e eu vejo a estupidez nadando nas águas subterrâneas do serviço público.
Olho pra janela e tem um sol de inverno batendo legal nas árvores que balançam com o vento e eu trancado ao som de conversas paralelas sobre greve, planejamento, metas. E eu olho para meus tênis, que trazem as marcas de várias estradas e de vários caminhos sem sentido e não consigo entender o porquê disso. Será que eles caminharam tanto assim para saber como é o mundo lá fora? Fora dos esgotos?
Pediria meu violão e minha gaita, minhas canções e um bom tempo de descanço agora. Sem remuneração. Sem encomodação. Mas com seguro contra acidentes e um pouco de crédito na praça, pra poder me ligar mais nisso tudo. Só que eu não ligo a mínima pra o que eles estão fazendo lá dentro.
Eu realmente não ligo a mínima pra tudo isso, eu simplesmente não me importo. Tento não ler jornais, tento conversar de politica na lanchonete, tento não dizer "olá, tudo bem companheiro?" para os comunistas.
Só fico cansado as vezes dessa carnifinica. Mas aprendi a nadar numa pscina de sangue. Sou meu próprio colete salva vidas.
Feliz aniversário Bob Dylan, me convide pra um show seu. Não é assim que as coisas funcionam? Eu estou cansado de me sentir encomodado com a televisão também.

quinta-feira, 12 de maio de 2011

Desafiar os senhores da vida e da morte

Não há o que fazer com vocês. Porque vocês não são livres pra escolher o que realmente querem - eu sei que a culpa não é somente de vocês. Mas se sobe uma fumaça branca e suas ideias clareiam vocês se assustam e se fecham, e se alguém discorda de vocês  vocês se guardam e se trancam numa moral cega, girando num espaço infinito com trezentas constelações ofertadas à vocês na volta. Acostumaram-se a obedecer, isso é o que há. Eu não sei o que fazer com vocês. Eu enxergo tudo que tentam esconder de suas próprias mentes e é isso que me faz entender suas jogadas... mas eu pensava que estava um passo a frente de vocês e recebi uma rasteira - por trás. Porque não querem mudar, são reacionários com fantasias de revolucionários. Apostam na mesma estética, porque essa mesma estética já vendeu na semana passada. Mas só um trouxa vai ouvir a estética da semana passada, ou vocês reviram jornais velhos pra ler? Eles fazem parte dessa corja culta que ocupa os bares e os cafés e dizem que sociedade é um conceito livre que a gente cria na cabeça. Mas em cada beco escuro eu vejo uma mãe triste segurando seu filho e ela não acha isso. Porque vocês são reacionários.
Eu dei as minhas visceras nesse projeto que lhes apresentei, revolucionei as minhas ideias,compus, pedi dinheiro emprestado, faltei com respeito a quem merecia ser desrespeitado, fiz o que tinha que ser feito por mim, o que eu realmente queria mostrar. Eu queria mostrar para as pessoas que elas podem se expressar livremente e o que aconteceu foi o contrário. Um bando de gente estúpida se apresentou mostrando a mesma forma de se fazer música a 50 anos atrás, apenas com um belo rótulo novo e uma cartada de sorte na burocracia. Eu não tenho saco nem pra ver vocês sorrindo na calçada da fama, mas espero que sorriam. Porque assim como os culpados e traidores, os Judas e os Pilatos, vocês terão as suas glórias roubadas no passar da história e eu quero assistir esse tombo feio de vocês.
Rock'n'Roll? Eu sou o anjo da inquisição que quero roubar as suas guitarras elétricas e estourar seus tímpanos com meu grito visceral de ódio ao vício de vocês. O vício de se corromper por coisas tolas, o vício de se corromper por mediocridades ignorantes que só servem para acumular a mesma e velha ideia num saco de farinha estragada com a validade vencida e prorogada até o próximo mês. Eu sou o zumbido que vai ecoar desafinado no hall da fama onde vocês vão se esconder de mim e de todas as pestes podres da rua. Não há desafio no que vocês propõe, não há novidade em todo esse teu Rock'n'Roll.. não há tragédia nessa absurda comédia real.
Uma simples tentativa de dizer que as pessoas são livres pra falar o que quiserem com o que elas tiverem na mão, uma simples tentativa de organizar um pouco essa flatulência de ideias diferentes que eu vejo na rua... de querer somar um pouco mais a essa mediocre cena musical que a gente se insere, e vocês cortam assim? Simplesmente censurando um grito incapaz de censurar? Isso não é fácil de aturar, e épor isso que yo nada sei.
Sei que existe uma regra, "faça rock'n'roll, ligue sua guitarra, toque blues, critique alguém", sim eu sei bem, mas não consigo obedecer como vocês. Eu não vou parar aqui, eu tenho um suspiro mórbido nos meus lábios e farei que vocês escutem. Tenho ganas de chorar quando vejo suas ideias e concepções, se afogando simplesmente num copo de cerveja e se achando um deus do underground das ideias. Mas eu sei que a vida não vale nada, nada disso que vocês pensam. Já olhei todas as estrelas e nenhuma canção de vocês mudou a rota ou o brilho delas, se eu tivesse um cavalo agora ia seguir por um campo verde e ainda coberto por geada. Com gauche, como livre, como todos deveriam ser. Mas me reguardo aqui na minha querência, e espero que vocês não se encomodem com o barulho e as farpas. Tenho uma lanterna acesa na minha cabeça e um canivete na ponta do coração. Eu vou esperar dentro de um baril de pólvora...
E a todos os índios e os cavalos sem sorte que por essas bandas se cruzam e compartilham de ideias libertarias, peço força e luz, que nossas chamas nunca se apaguem e que nosso calor se mantenha maior do que essas balbucias facistas dos senhores de porra nenhuma. Eu sou livre e eu tenho tudo que preciso dentro de mim, como uma paisagem campestre.
E o Vitor Ramil me completa:

Semeaura 

Nós vamos prosseguir, companheiro
Medo não há
No rumo certo da estrada
Unidos vamos crescer e andar
Nós vamos repartir, companheiro
O campo e o mar
O pão da vida, meu braço, meu peito
Feito pra amar.


Americana Pátria, morena
Quiero tener
Guitarra y canto libre
En tu amanecer
No pampa, meu pala a voar
Esteira de vento e luar
Vento e luar

Nós vamos semear, companheiro
No coração
Manhãs e frutos e sonhos
Pr'um dia acabar com esta escuridão
Nós vamos preparar, companheiro
Sem ilusão
Um novo tempo, em que a paz e a fartura
Brotem das mãos

Americana Pátria, morena
Quiero tener
Guitarra y canto libre
En tu amanecer
No pampa, meu pala a voar
Esteira de vento e luar
Vento e luar


Minha guitarra, companheiro
Fala o idioma das águas, das pedras
Dos cárceres, do medo, do fogo, do sal
Minha guitarra
Tem os demônios da ternura e da tempestade
É como um cavalo
Que rasga o ventre da noite
Beija o relâmpago
E desafia os senhores da vida e da morte
Minha guitarra é minha terra, companheiro
É meu arado semeando na escuridão
Um tempo de claridade
Minha guitarra é meu povo, companheiro


Americana Pátria, morena
Quiero tener
Guitarra y canto libre
En tu amanecer
No pampa, meu pala a voar
Esteira de vento e luar
Vento e luar



E como o Fogaça disse, "vento negro varrerá o que houver no chão"