quinta-feira, 12 de maio de 2011

Desafiar os senhores da vida e da morte

Não há o que fazer com vocês. Porque vocês não são livres pra escolher o que realmente querem - eu sei que a culpa não é somente de vocês. Mas se sobe uma fumaça branca e suas ideias clareiam vocês se assustam e se fecham, e se alguém discorda de vocês  vocês se guardam e se trancam numa moral cega, girando num espaço infinito com trezentas constelações ofertadas à vocês na volta. Acostumaram-se a obedecer, isso é o que há. Eu não sei o que fazer com vocês. Eu enxergo tudo que tentam esconder de suas próprias mentes e é isso que me faz entender suas jogadas... mas eu pensava que estava um passo a frente de vocês e recebi uma rasteira - por trás. Porque não querem mudar, são reacionários com fantasias de revolucionários. Apostam na mesma estética, porque essa mesma estética já vendeu na semana passada. Mas só um trouxa vai ouvir a estética da semana passada, ou vocês reviram jornais velhos pra ler? Eles fazem parte dessa corja culta que ocupa os bares e os cafés e dizem que sociedade é um conceito livre que a gente cria na cabeça. Mas em cada beco escuro eu vejo uma mãe triste segurando seu filho e ela não acha isso. Porque vocês são reacionários.
Eu dei as minhas visceras nesse projeto que lhes apresentei, revolucionei as minhas ideias,compus, pedi dinheiro emprestado, faltei com respeito a quem merecia ser desrespeitado, fiz o que tinha que ser feito por mim, o que eu realmente queria mostrar. Eu queria mostrar para as pessoas que elas podem se expressar livremente e o que aconteceu foi o contrário. Um bando de gente estúpida se apresentou mostrando a mesma forma de se fazer música a 50 anos atrás, apenas com um belo rótulo novo e uma cartada de sorte na burocracia. Eu não tenho saco nem pra ver vocês sorrindo na calçada da fama, mas espero que sorriam. Porque assim como os culpados e traidores, os Judas e os Pilatos, vocês terão as suas glórias roubadas no passar da história e eu quero assistir esse tombo feio de vocês.
Rock'n'Roll? Eu sou o anjo da inquisição que quero roubar as suas guitarras elétricas e estourar seus tímpanos com meu grito visceral de ódio ao vício de vocês. O vício de se corromper por coisas tolas, o vício de se corromper por mediocridades ignorantes que só servem para acumular a mesma e velha ideia num saco de farinha estragada com a validade vencida e prorogada até o próximo mês. Eu sou o zumbido que vai ecoar desafinado no hall da fama onde vocês vão se esconder de mim e de todas as pestes podres da rua. Não há desafio no que vocês propõe, não há novidade em todo esse teu Rock'n'Roll.. não há tragédia nessa absurda comédia real.
Uma simples tentativa de dizer que as pessoas são livres pra falar o que quiserem com o que elas tiverem na mão, uma simples tentativa de organizar um pouco essa flatulência de ideias diferentes que eu vejo na rua... de querer somar um pouco mais a essa mediocre cena musical que a gente se insere, e vocês cortam assim? Simplesmente censurando um grito incapaz de censurar? Isso não é fácil de aturar, e épor isso que yo nada sei.
Sei que existe uma regra, "faça rock'n'roll, ligue sua guitarra, toque blues, critique alguém", sim eu sei bem, mas não consigo obedecer como vocês. Eu não vou parar aqui, eu tenho um suspiro mórbido nos meus lábios e farei que vocês escutem. Tenho ganas de chorar quando vejo suas ideias e concepções, se afogando simplesmente num copo de cerveja e se achando um deus do underground das ideias. Mas eu sei que a vida não vale nada, nada disso que vocês pensam. Já olhei todas as estrelas e nenhuma canção de vocês mudou a rota ou o brilho delas, se eu tivesse um cavalo agora ia seguir por um campo verde e ainda coberto por geada. Com gauche, como livre, como todos deveriam ser. Mas me reguardo aqui na minha querência, e espero que vocês não se encomodem com o barulho e as farpas. Tenho uma lanterna acesa na minha cabeça e um canivete na ponta do coração. Eu vou esperar dentro de um baril de pólvora...
E a todos os índios e os cavalos sem sorte que por essas bandas se cruzam e compartilham de ideias libertarias, peço força e luz, que nossas chamas nunca se apaguem e que nosso calor se mantenha maior do que essas balbucias facistas dos senhores de porra nenhuma. Eu sou livre e eu tenho tudo que preciso dentro de mim, como uma paisagem campestre.
E o Vitor Ramil me completa:

Semeaura 

Nós vamos prosseguir, companheiro
Medo não há
No rumo certo da estrada
Unidos vamos crescer e andar
Nós vamos repartir, companheiro
O campo e o mar
O pão da vida, meu braço, meu peito
Feito pra amar.


Americana Pátria, morena
Quiero tener
Guitarra y canto libre
En tu amanecer
No pampa, meu pala a voar
Esteira de vento e luar
Vento e luar

Nós vamos semear, companheiro
No coração
Manhãs e frutos e sonhos
Pr'um dia acabar com esta escuridão
Nós vamos preparar, companheiro
Sem ilusão
Um novo tempo, em que a paz e a fartura
Brotem das mãos

Americana Pátria, morena
Quiero tener
Guitarra y canto libre
En tu amanecer
No pampa, meu pala a voar
Esteira de vento e luar
Vento e luar


Minha guitarra, companheiro
Fala o idioma das águas, das pedras
Dos cárceres, do medo, do fogo, do sal
Minha guitarra
Tem os demônios da ternura e da tempestade
É como um cavalo
Que rasga o ventre da noite
Beija o relâmpago
E desafia os senhores da vida e da morte
Minha guitarra é minha terra, companheiro
É meu arado semeando na escuridão
Um tempo de claridade
Minha guitarra é meu povo, companheiro


Americana Pátria, morena
Quiero tener
Guitarra y canto libre
En tu amanecer
No pampa, meu pala a voar
Esteira de vento e luar
Vento e luar



E como o Fogaça disse, "vento negro varrerá o que houver no chão"

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