quarta-feira, 1 de junho de 2011

Meu grande problema zen

Manhã fria e úmida de Porto Alegre, eu te pergunto quanto vale a vida nessa carcaça metálica e apertada, com mais 68 passageiros, todos com frios, pensamentos e decadências particulares. Eu me afundo numa poltrona revestida de algo imitando couro, 6 e 40 da manhã e ainda estou digerindo o pão com presunto e o café preto com leite morno. E todos aqui estão dançando agarrados em suas rotinas, há gordas, magras, ruivas, sedentários, jaquetas jeans, calça suplex. Todos parados, inertes... e se movimentando. Como? manhã cinzenta eu te pergunto, como? As nuvens recuam, avançam, se juntam, se transformam e caem em gotas d’agua fria. Motivo próprio, particular, o circulo vital do oxigênio. Vontade própria, por sua própria vontade. A folha se desprende levemente do galho da árvore, desliza no ar como se ele a amparasse durante a queda e cai no chão mole como uma fatia de queijo. E se você passar por ela no chão, não imaginará que ela já fez parte daquela imensa árvore ao seu lado. Você é capaz de respeitar mais aquela árvore do que aquela folha. E ela se recosta no solo, absorve energia, entrega as suas e renasce, esbravejante, leve, no galho de outra árvore. O tronco da árvore ligado ao solo por uma raiz tão viva e firme se locomove ao longo dos anos e se ele cair vai rolar e terminará em algum lugar. Para depois se transformar em outra coisa. E mesmo se você o cortar, depois atirá-lo numa fogueira, ele queimará, queimará, e o aquecerá e depois de queimar subira ao céu em forma de fumaça e depois retornará ao solo em forma de uma chuva iluminada, e você será obrigado a usar um guarda-chuva barato porque não quer se molhar. Mas você é água, se molha todo dia, anda por aí respirando água e usa guarda-chuvas.
As avenidas ficam cheias nessas horas da manhã, você tem que estar aqui para ver, eu dou risada sozinho com meus pensamentos harmoniosos, é tão engraçado como as coisas vão se encaixando. Como na noite em que eu passei em claro e no meio da madrugada vi o céu vermelho, e não tinha nenhuma estrela ali, não tinha nenhuma lua, apenas nuvens vermelhas naquele céu durante a madrugada. E tudo se encaixava na mais perfeita harmonia, o silêncio, o vento leve – as coisas convergiam para um fim onisciente e coletivo e eu estava sendo levado, quase que para fora da janela do meu quarto, enquanto lia Kadish de Ginsberg e tinha imagens de um enterro judaico. Eu imaginei Allen Ginsberg olhando o céu vermelho da madrugada, lamentando os anos perdidos. A loucura. E tudo se encaixava e eu estava voando em espiral para o poema de Allen Ginsberg. Isso era só um ideal jovem e utópico, tipo quando você vê um garoto saindo do cinema “Juventude Transviada”, Marlon Brando nas idéias, On the Road na mochila.
Mas isso tudo não passa de meros entretenimentos, respostas obvias no vazio. E eu aqui com meu grande problema zen – quanto vale isso tudo? e como essas pessoas paradas, inertes, estão na verdade se locomovendo, indo para um lugar distante?

Minha grande resposta zen é: não olhe o ônibus.

Estamos sempre nos movimentando, a lua, a manhã fria, a folha, o céu vermelho da madrugada, Kadish, Ginsberg... estamos todos entrelaçados no parapeito do caminhão numa eterna viagem. Jamais deixamos de nos movimentarmos. A resposta virá soprando pelo vento, porque, olha só o que é o vento, um gigante que nos engole, penetra em nossos poros e sai, levando quem nós somos embora. E ficamos dentro do vento, e o vento dentro de nós – soprando por aí. Por isso minha intimidade com esse ônibus velho, de casca fina e metálica. Sempre foi ele a minha moradia, sempre estivemos viajando, soprando por aí. Só mudaram nossas bagagens. Tristezas em Porto Alegre, terror em Santa Catarina, satori nas esquinas, solidão em Cachoeirinha. Noites intermináveis dentro de mim. No vento.
E é tão engraçado o rosto das pessoas atarefadas com nada nesse vazio de ferro. Eu gostaria de escrever um poema sobre o som que sai dessas expressões tristes. Nós escutamos, pulamos no teto e sopramos no vento. E o ônibus para, as pessoas descem, as outras sobem e ali continuam seu movimento e ali continua o ônibus, no sentido contrario da morte. Porque movimento é vida.
Depois eu sigo pelo centro de Porto Alegre com meus dedos congelando enfiados dentro dos bolsos da jaqueta de jeans, mas tem um furo na mão esquerda e isso me incomoda seriamente. Seriamente.

6 comentários:

  1. aahh, eu acho que tu tinha comentando em algum outro texto meu, aí resolvi dar uma olhada no blog e gostei... =))

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  2. "Mas isso tudo não passa de meros entretenimentos, respostas obvias no vazio. E eu aqui com meu grande problema zen – quanto vale isso tudo?"

    Pra essa pergunta eu só tenho meu silêncio, não é exatamente uma resposta, mas é que me arrancaste as palavras.

    Dizem, que a inquietação é o começo, mas eu me inquieto para saber qual o meio e como será o fim.

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  3. A gente reclama tanto do sogil e da transcal, mas ao fim desses dois anos de viagens e viagens é óbvio q a gente aprendeu da vida muito mais dentro dessas latas velhas q em qqr outro lugar. Qdo eu durmo no sogilzao é pra não ver, não pq estou com sono, acabei de acordar! Ao mesmo tempo, me dar conta que eu aprendo muito da vida dentro do ônibus, com aquelas pessoas que nunca olham pra mim embora eu sempre olhe pra elas, me diz que meu tempo por essas paragens já acabou.

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  4. bacana teu blog. tu vê porto alegre duma maneira que eu via quando comecei a morar aí, hoje já não vejo mais assim, mas tu escreve bem e sempre bacana achar lugares com beatniks e julio reny.

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  5. Gostei da tradução do vento! comecei a ler o Neal Cassady essa semana (O Primeiro Terço) dai inventei de pesquisar sobre o cara...foi ai q achei seu blog!e o engraçado é que eu tbm escrevi coisas sobre o carro, o transporte e o estar parado e em movimento...mas nada assim com tanto sentimento e ao mesmo tempo tão simples! vou voltar mais vezes por aqui!

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