segunda-feira, 18 de julho de 2011

Literary High

Seimon Kandir, eu pensava sobre o holocausto. Enquanto a noite avançava triste sobre a rodoviária, sentada nos bancos da sala de espera. E Henry Quyuk também estava com sua despreocupação corriqueira sobre mutação genética, morros uivantes na Rússia, cumes inalcançáveis e histórias de avô. Gary Stand By esta parada com alguma preocupação no olhar, disfarçando com piadas sobre o tempo, o espaço, a viagem. Adam Pope esta tranqüilo com seu penteado e seu sorriso, e teme não sofrer de amor ou não dar risadas trágicas. Ele tem uma mochila carregada, com inclusive uma cômica panela pendurada (mais tarde seria a nossa salvação em uma madrugada pobre e faminta na beira de uma fogueira heróica). Alguém pergunta, “Woody Lee Jay, você não vai se despedir da cidade?”, mas é tarde demais, os motores já fazem barulho e fumaça suficiente para distrair qualquer atenção. Terminamos o cigarro coletivo e nos apertamos para perto do ônibus. Eu levo na mochila o indispensável para poucos dias. A barraca, duas garrafas de conhaque, o fumo (este ficou comigo, porque da última vez Stand By perdeu quase 30 gramas na praia sem explicação e ficamos todos remoendo aquele ódio perverso e tivemos que fazer drinks fortes com o que tivesse por perto; cachaça e limão, ou qualquer fruto que pudesse ser apanhado sem esforços), algumas roupas. S. K. guarda o LSD na bateria do seu celular e eu me pergunto se as interferências magnéticas não irão interferir no efeito do nosso ácido. E fico rindo da possibilidade da gente tomar e virar uns eletrodomésticos gigantes fazedores de causo! É uma chapação literária. E o tempo passa e eu penso sobre algumas “literary highs” como nos almoços nus lobaratoriais de drogas experimentais e venenos para baratas que os caras injetam. “é uma viagem kafkaniana, você se sente como um inseto”. Cara demais aquilo! Eu pensei sério vários dias sobre aquilo, e pensei em acordar como um liquidificador dentro da minha barraca. E de fato nossos cérebros automatizam com o tempo, nos transformam como máquinas. “eu preciso levar você para conhecer alguns rapazes da Interzone!”. Cara eu não caio nessa, nem vou fazer minha sessão diária a lá Guilherme Tell.


Mas dando seqüência aos fatos – e não fatos às seqüências – nós sentamos no ônibus para cruzar alguns poucos quilômetros e depois descer numa rodoviária vazia, escura, fria, deserta e suja (que só viríamos ‘habitada’ quando estivéssemos voltando da viagem, mas aí aquelas pessoas todas pareceriam seres extraordinários para nós) para esperar uma Kombi branca vir de uma estrada de terra e nos pegar, aí levariam aqueles chapados para um festival de música livre. Paz e amor. Onde? Acho um saco essa coisa de “paz e amor”, ou “festival de música livre”, não cola mais sabe? Nunca existiu isso. Stand falaria, se pudesse ler meus pensamentos “Paz e amor? É.. uh... só!”. E antes da Kombi chegar a gente deu boas vindas ao final de semana e fechou um baseado ultraprofissional, forte pra caralho que nos chapou junto com o conhaque que já começava a nos esquentar. E dentro da Kombi a gente dava risada de alguma coisa que alguém falou, mas na verdade caminhávamos para o escuro-infinito-ameaçador que nos engolia cada vez mais e era só mato ou escuro. Ou os dois. Também era de se esperar que as coisas dessem errado. E deram. Lentamente o tempo fechou e começou a chover vagarosamente sobre a nossa cabeça. Todos chapados, no escuro e no barro molhado tentavam montar uma barraca que eu nunca tinha visto antes. Eram incríveis seis barras de ferro entrelaçadas e difíceis pra caralho de se juntar. E veio mais gente nos ajudar, até que finalmente conseguimos terminar o trabalho, enquanto uma banda da Suécia tocava (uma música ruim demais, como todas outras que tocaram ali, mas aquela se destacava...).

“Woody Lee Jay, você não vai se divertir conosco?” dizia uma das árvores com sorriso onírico, e eu com a complacência dos seres vivos apenas olhei para seu rosto e a encarei. Aquele deserto verde musgo chapado e fechado com grades.... eu podia ver teias de aranhas nos pensamentos deles, montanhas de lama nas barracas deles, e eles circulavam no deserto molhado como heróis mostrando suas armaduras, enquanto eu me refugiava com S. K e os garotos numa cobertura agradável de madeira. Henry Q. se me passava o conhaque, Stand e Adam conversavam sobre amenidades. Alguma coisa ali me fazia lembrar um grande circo, não dos horrores, tampouco dos prazeres, um circo imaginário. Outra vez Bill Lee me diz “it’s a literary high!” e aquele veneno amarelo de barata acaba e ele precisa de mais.

Mas tudo é impermanente eu sei, e aquelas pessoas se apegam a uma fantasia falsa. Eu só me divirto com os garotos, pulando em poças de lama. E como o anjo da desolação eu viajo do céu para casa, eu estive no inferno e sei tudo sobre o holocauso. Seimon junta fôlego com sua melhor roupa e se decompõe friamente em barro espacial, geléia matinal – bosta. Viagens de ácido. Não preciso entrar na parte das ‘trips’, não preciso entrar nos confins escuros da mente também, para dizer o que existe lá. Nada. Essa é nossa vida, nossa (in)verdade e essa foi nosso entretenimento passageiro. Como Adam e seu cabelo escovado no primeiro dia, e como ele ficou maltrapilho e sujo no último dia, enquanto a gente voltava por uma cidade pequena e bonita do interior. Pequenos fatos juntos da nossa amizade, enquanto os outros nos vêem com olhares agressores e a gente da risada da folha voando pela rua. Nós somos bons amigos na verdade, explorando algumas cidades desconhecidas para descolar um pouco de diversão e não importam os conceitos ou as bases filosóficas que se enfiam no meio disso tudo. É só um tempo gasto com bobagens divertidas. E o tempo passa, mas não nos deixa mais solitário dentro de nós mesmo, porque nos alimentamos de lembranças.

sexta-feira, 15 de julho de 2011

Dr. Halam

- Tudo está caindo... e não haverá tempo para uma cúpula secreta negociar tratados de paz. Não serão também os acordos que irão importar, nem tão pouco as palavras jamais escritas. Tudo está caindo e está bem na sua frente. Como se estivessemos na frente de uma cachoeira curbana.

- Analíticos, críticos, ansiolíticos, verídicos, transcritos - monumentos erguidos, o mugido, o barulho dos gemidos, Dr. Halam, isso não te diz alguma coisa?

- Apenas produtos de nossa constante fome de produção...

- Se estivessemos mesmo caindo a metafísica não explicaria tudo isso e sua grande tese não estaria - ela sim - caindo por água a baixo?

- Na ficção pré-socrática, nas argilas do 1° mundo... talvez.

- Ficção pré-socrática?

- Tolices da antiguidade. Como a Internet hoje... ela também está caindo. A máscara oculta da submissão também está caindo. Como o gelo ártico...

- Eu estive pensando sob a sombra de uma tamareira árabe, à respeito do grande oceano grudado ao chão artificial que o senhor falou naquele artigo...

- "As veias do cérebro"

- Isso... e na minha concepção, se "aprendemos errados" e deixamos de entender certas coisas a respeito disso..

- Nossa concepção moldada aristotélicamente, você diz?

- Dr. Halam... onde você está?

- Na sua cabeça, Dr. Halam.

- Halam?

.....

"33#47/KV-****/33#2"

O código apareceu na tela, em destaque.

- Código inserido. O projeto pode parar, continuaremos amanhã. Insira outra dose do Elixir Paregórico no paciente #286.

- Quanto ao Desdobramento Mental?

- Imprima os resultados e deixe na mesa do Dr. Halam...

- Do Dr.... Halam?

Carregando o Elixir ele para confuso entre a porta e o paciente. O doutor deixa a sala já retirando o avental branco. O atira no chão..

"Dr. Halam"

Se lê no crachá amarelo.

E o funcionário bebe o elixir, lendo no seu crachá após sair da sala do paciente e do doutor.

"Halam"

.....

"33#47/KV-****/33#2"


- Transação aceita, o código foi inserido... iniciar Remodelação da Memória e alterar dados de Desdobramento Mental...

- Perfeito Dr. Halam!

segunda-feira, 11 de julho de 2011

Darma sujo de concreto

Lá estava a figura dele, flutuando sobre o lixo que entupia as calçadas. Cidade cinza e lágrimas de concreto. Óleo diesel nas escavações do coração de Judas Iscariotes. Um sorriso falso no reflexo do vidro embaçado, na noite luminosa das canções da geração perdida. Sete anos após a guerra, e os fantasmas ainda assombram os casarões vazios e frios onde circula o vento doentio da morte. Mentes frenéticas como Trensurb em ligações magnéticas de alta voltagem. Canos quebrados jorrando seu esgoto em direção ao caos matemático da grande cidade, no sonho luminoso do anjo da constelação líquida. Veias e venenos, soprando no cais do porto desde a saída da última embarcação, com serpentes no convés, se lançando ao mar de águas sujas sob um céu sem cor. Vidas e avenidas, se cruzando como um cérebro em conexões lentas com a realidade. Todos fadados ao fracasso, da prisão de gravatas à flanela colorida que abana ao carro de vidros fechados. Mentes subjetivas e olhos fechados ao acaso, subtraem a virtude para verem melhor as propagandas e o cinismo do sequestrador. Todos amontoados se acotovelando na selva de concreto sujo, pisando sobre o Darma dos sofredores telepáticos, buscando uma saída em cada esquina, para acordar numa cama de plumas e adormecer como tijolo de construção - enfileirados. Nesse ballet cotidiano a eternidade se confunde com os horários do metrô, e a virtude do honesto vagabundo se apaga nos passos apressados das pernas violentas e cegas que trituram o vazio. Darma apagado ainda soa baixinho no sinal de transito, sujo de concreto, na cabeça desnuda do locutor do cotidiano. Braços viajando no ar, mensagens presas na jaula do tigre - expulso das montanhas de Shangai, leve lembrança ainda presa numa garra afiada solta num buraco frio no seu peito.
Cidades em catarse para o anjo da desolação, num pouso triste deslocar sua asa. No último ato da tragédia cravado num abismo do Darma. Pouco para o anjo louco da cabeça de engrenagem. No entanto, leve e abstrato é o dia - num voô angelical pelas nuvens brancas de algodão... aos poetas da catarse.

sexta-feira, 8 de julho de 2011

Longo é o inverno...

Tivemos um longo e frio inverno, com o sol batendo fraco demais para esquentar nossas mãos, e com sombras tão geladas quanto escuras. Era o fim daqueles tempos inocentes, sentados ao anoitecer na frente do fogão à lenha enquanto a sopa chegava fervendo e nós sorriamos e o mundo nos sorria. Havia pão sobre a mesa sem toalha e aquilo nos dava certa segurança quanto ao café da manhã do dia seguinte. Sempre fomos pobres e no inverno sofriamos muito, mamãe trabalhava na casa de uma mulher que tinha um mercado e as vezes eu podia ir lá e comia algumas coisas diferentes. A rua sempre era um recomeço para nossas vidas, e eu via exemplos ruins de vida, coisas que eu não deveria seguir. E naqueles longos invernos eu andava pelo pátio da casa procurando o sol, até que me aquecesse o suficiente para amolecer um duro coração de gelo que ia se formando - moldado pelas constantes brigas com os vizinhos e as ameaças e os tropeços. Sempre olhava para o meu cachorro nos dias de mais frio, olhos serenos, calmos como uma criança satisfeita e uma expressão de leveza que eu jamais vi em nenhum lugar. E um pelo fino que me dava pena por imaginar que ele podia amanhecer congelado, ou coberto de geada. Mas sempre que eu acordava ele já estava muito mais disposto do que eu e me recebia alegre como se o frio não importasse tanto para um cachorro. E as vezes latia e eu sentava ao lado dele, ele era quase do meu tamanho, com patas enormes e brancas - e eu não conseguia entender o que ele queria me dizer. Sabe-se lá quantas coisas ficaram para trás. Anos depois ele morreu. Eu carreguei ele pra rua, mole, sem vida e com os olhos iguais dos dias de frio. Minha irmã abraçada em minha mãe chorando, meu avô nem quis muito ver, mas saiu com os olhos molhados para a rua. Ele foi enterrado no inverno e eu me senti vazio e triste. Pensei nas coisas que deixei para trás, no que eu não entendi dos seus latidos e enfim, ele partiu pra um buraco cavado na teerra vermelha perto da minha casa. Assim foram se estendendo os anos, sempre com sonhos, frustrações, invernos e verões. E enquanto se cresce não se nota muito esse turbilhão de coisas que acontece em um segundo - mas nossa cabeça pura esta crescendo e convergindo para um fim burocrático e didático, sendo podada de qualquer sentimento puro que possa se guardar. E é assim, os invernos se estendem em longas sombras frias e os nossos cães de estimação morrem e vão para buracos fundos na terra, sem a menor explicação do que queriam dizer com seus latidos. Então partimos suaves para o fim da inocência, acumulando curativos e remendos em nossas fraquezas, como a marcha fúnebre dos animais mortos. Um amigo meu enterrou um coelho no pátio dele, e um dia seu cachorro desenterrou e terminou com o coitado. Os restos sujos de sangue e barro foram parar na cozinha, enquanto eles não estavam por ali. Coelhos não devem ser enterrados simplesmente no fundo do pátio, eu sabia isso ainda naquela época e eles tiveram uma frustração enorme com o cachorro que já havia mordido um gato. E no fundo amarguramos nossos invernos e nossas perdas, com a esperança do fino raio de sol nos alcançar. Sentados a beira da estrada, moldando como um barro nossa história e nossos movimentos tristes. Quando nos vemos no espelho e ja não somos mais como naquela velha três por quatro é sinal de que já se passou muita coisa, mas nossos olhos permaneceram serenos e calmos, como os de uma criança satisfeita para sempre, até o dia em que o inverno não mais importar.
Mas os longos e frios invernos continuam e eu pergunto às nuvens negras quando o raio de sol irá nascer - mas em algum lugar ele brilha, ele sempre irá brilhar. Telepaticamente saberemos para onde olhar, com nossos olhos desnudos de feitiços do cotidiano, com o ar sereno dos cães, a inocência das crianças pobres...

E Arnaldo Baptista termina isso como um "Raio de Sol"

"Tô sentado ao lado da estrada,
esperando por um raio de sol
Acho que faz muito tempo,
desde que eu me mandei
Eu costumava ter um bom coração
então eu dise pra mim "qual é a tua cara?!"
Últimamente tenho mudado muito
vou tentando me entender,

Pois vou cavalgando nessa vida,
esperando nosso amor vencer
Minha cara vou pra casa logo,
Não se desespere pois ja ia te pegar

Tô indo para o sul de carona
Puxa se eu tivesse a moto!
O visual parece me ajudar
nessa minha empreitada
Sorte vai ter nosso filinho
quando ver você de novo, amor
Vamos ter nosso ranchinho
e ir pro sul de carona...."

terça-feira, 5 de julho de 2011

Frio do sul

Porto Alegre. Tem um prédio sujo a minha direita, que eu vejo pela janela quebrada e que se mostra através da cortina rasgada. E não é isso que aparece nas propagandas da tevê. Mas eu prefiro assim e as vezes até contribuo para tua sujeira escrevendo pelos muros palavras insanas de amor e morte. Como numa canção bairrista que fala do frio do sul, ou como num conto de um pescador. Velho lobo do mar, que não sabe nada sobre amar uma mulher no frio. Ninguém há de saber. Enquanto a televisão anuncia, em vias de festa, que a sensação térmica já passou de 10 graus negativos e eu coloco roupas sobre roupas e achando tudo isso um grande ridículo vestuário, as mulheres dançam no fogo das lareiras ao redor de nossas mentes desarticuladas. E o café nos serve de estímulo, a fome de aviso e a geada cai provocante sobre nossos capotes escuros. Então num trem, nesse vagão solitário, em uma viagem melancólica o frio penetra nos teus pensamentos e você imagina aquele velho vinho de anos atrás. Aí novamente algo te persegue e se mistura com a neblina no ar. Está tudo ali, soprando ao redor da sua cabeça, como em flashes luminosos, tipo quando atravessamos a cidade de noite e os anuncios de motéis brilhavam como nunca, e os carros passavam e deixavam seus espectros coloridos e até as luminárias eram mágicas. Fontes inesgotáveis de energia pura e limpa. Mas tudo tem seu preço. E o frio do sul não é uma criança ingênua brincando de matar formigas com uma lupa. Então os loucos incendiários e os fazedores de causos, com suas mentes deflagradas pela consciencia telepática, se voltam contra a História e as propagandas e os anúncios de tevê. "Diamantes Telepáticos" é o que buscamos nos tornar. Luz em becos criminosos. Saúde em clinicas psquiatricas. Na luta com o frio, a angústica, o emprego, o dinheiro, as placas, os desejos, os normais, os abstratos, os covardes, as chaleiras com água quente. Como num gole sofrido de um mate amargo.