sexta-feira, 8 de julho de 2011

Longo é o inverno...

Tivemos um longo e frio inverno, com o sol batendo fraco demais para esquentar nossas mãos, e com sombras tão geladas quanto escuras. Era o fim daqueles tempos inocentes, sentados ao anoitecer na frente do fogão à lenha enquanto a sopa chegava fervendo e nós sorriamos e o mundo nos sorria. Havia pão sobre a mesa sem toalha e aquilo nos dava certa segurança quanto ao café da manhã do dia seguinte. Sempre fomos pobres e no inverno sofriamos muito, mamãe trabalhava na casa de uma mulher que tinha um mercado e as vezes eu podia ir lá e comia algumas coisas diferentes. A rua sempre era um recomeço para nossas vidas, e eu via exemplos ruins de vida, coisas que eu não deveria seguir. E naqueles longos invernos eu andava pelo pátio da casa procurando o sol, até que me aquecesse o suficiente para amolecer um duro coração de gelo que ia se formando - moldado pelas constantes brigas com os vizinhos e as ameaças e os tropeços. Sempre olhava para o meu cachorro nos dias de mais frio, olhos serenos, calmos como uma criança satisfeita e uma expressão de leveza que eu jamais vi em nenhum lugar. E um pelo fino que me dava pena por imaginar que ele podia amanhecer congelado, ou coberto de geada. Mas sempre que eu acordava ele já estava muito mais disposto do que eu e me recebia alegre como se o frio não importasse tanto para um cachorro. E as vezes latia e eu sentava ao lado dele, ele era quase do meu tamanho, com patas enormes e brancas - e eu não conseguia entender o que ele queria me dizer. Sabe-se lá quantas coisas ficaram para trás. Anos depois ele morreu. Eu carreguei ele pra rua, mole, sem vida e com os olhos iguais dos dias de frio. Minha irmã abraçada em minha mãe chorando, meu avô nem quis muito ver, mas saiu com os olhos molhados para a rua. Ele foi enterrado no inverno e eu me senti vazio e triste. Pensei nas coisas que deixei para trás, no que eu não entendi dos seus latidos e enfim, ele partiu pra um buraco cavado na teerra vermelha perto da minha casa. Assim foram se estendendo os anos, sempre com sonhos, frustrações, invernos e verões. E enquanto se cresce não se nota muito esse turbilhão de coisas que acontece em um segundo - mas nossa cabeça pura esta crescendo e convergindo para um fim burocrático e didático, sendo podada de qualquer sentimento puro que possa se guardar. E é assim, os invernos se estendem em longas sombras frias e os nossos cães de estimação morrem e vão para buracos fundos na terra, sem a menor explicação do que queriam dizer com seus latidos. Então partimos suaves para o fim da inocência, acumulando curativos e remendos em nossas fraquezas, como a marcha fúnebre dos animais mortos. Um amigo meu enterrou um coelho no pátio dele, e um dia seu cachorro desenterrou e terminou com o coitado. Os restos sujos de sangue e barro foram parar na cozinha, enquanto eles não estavam por ali. Coelhos não devem ser enterrados simplesmente no fundo do pátio, eu sabia isso ainda naquela época e eles tiveram uma frustração enorme com o cachorro que já havia mordido um gato. E no fundo amarguramos nossos invernos e nossas perdas, com a esperança do fino raio de sol nos alcançar. Sentados a beira da estrada, moldando como um barro nossa história e nossos movimentos tristes. Quando nos vemos no espelho e ja não somos mais como naquela velha três por quatro é sinal de que já se passou muita coisa, mas nossos olhos permaneceram serenos e calmos, como os de uma criança satisfeita para sempre, até o dia em que o inverno não mais importar.
Mas os longos e frios invernos continuam e eu pergunto às nuvens negras quando o raio de sol irá nascer - mas em algum lugar ele brilha, ele sempre irá brilhar. Telepaticamente saberemos para onde olhar, com nossos olhos desnudos de feitiços do cotidiano, com o ar sereno dos cães, a inocência das crianças pobres...

E Arnaldo Baptista termina isso como um "Raio de Sol"

"Tô sentado ao lado da estrada,
esperando por um raio de sol
Acho que faz muito tempo,
desde que eu me mandei
Eu costumava ter um bom coração
então eu dise pra mim "qual é a tua cara?!"
Últimamente tenho mudado muito
vou tentando me entender,

Pois vou cavalgando nessa vida,
esperando nosso amor vencer
Minha cara vou pra casa logo,
Não se desespere pois ja ia te pegar

Tô indo para o sul de carona
Puxa se eu tivesse a moto!
O visual parece me ajudar
nessa minha empreitada
Sorte vai ter nosso filinho
quando ver você de novo, amor
Vamos ter nosso ranchinho
e ir pro sul de carona...."

2 comentários:

  1. "E no fundo amarguramos nossos invernos e nossas perdas, com a esperança do fino raio de sol nos alcançar. "

    :)
    Você iria gostar de Ler John Fante (se já não tiver lido)

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  2. Li sim, tu te refere precisamente ao "1933 was a bad year" né?
    inverno, perdas... O Braço...

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