quinta-feira, 15 de setembro de 2011

Últimas lágrimas do Monumental

Grêmio x Boca Juniors

         Chovia de maneira descomunal naquele dia. Gremistas fervorosos, azuis de alma lavavam seus rostos tristes em lágrima, desespero e dor, e tinham a esperança ofuscada pelo breu que se formava sobre suas cabeças e as gotas amargas que desciam daquelas nuvens. Era o último jogo oficial no Estádio Olímpico Monumental, e o Grêmio perdia, novamente. Fadado ao rebaixamento, ao fim trágico de um clube de futebol, marchava o Grêmio para os minutos finais daquele jogo. Grêmio zero, Flamengo um. Os cariocas zombando como nunca do nosso vexame histórico e nossa derrota emblemática dava o título à eles. Quarenta e sete minutos, o juiz – que não marcou duas penalidades máximas no primeiro tempo para o Grêmio – prometeu jogo até os quarenta e oito, mas a torcida não queria que o jogo terminasse. Eram os últimos minutos do Grêmio na Série A do Campeonato Brasileiro, eram os últimos minutos em que a grama do Estádio Olímpico Monumental receberiam as travas honrosas dos jogadores gremistas. Ironia do destino, quis as Forças Superiores do Futebol que as travas dos jogadores flamenguistas deslizassem alegremente naqueles últimos instantes finais. E eram 40 mil torcedores do estádio, nenhum levantou, nenhum foi embora. Por horas algo acossava todos os corações gremistas machucados no Estádio e os faziam ficar calados por segundos, ouvindo vergonhosamente a bola bater nas canelas dos jogadores tricolores. Quarenta e oito minutos, já estava esgotada a participação do Grêmio na Série A. O presidente chorava dentro do vestiário quando chegou a notícia esperançosa: o Atlético Mineiro venceu com um gol aos exatos quarenta e oito minutos a equipe do Bahia, e estavam eles caindo direto para o inferno da Série B, caso o Grêmio empatasse. O Vasco vencia por três a zero o Corinthians e se garantia em segundo lugar. Um só gol mudaria a história do campeonato. Caso o Grêmio empatasse, o Bahia seria o rebaixado, e o Vasco seria o Campeão Brasileiro, sobrando para o Flamengo, a segunda posição.
         A notícia do gol do Atlético ressoou nos autofalantes do Estádio, a torcida se calou para ouvir e logo depois encher os olhos de lágrimas. A festa que havia sido organizada no Olímpico, para a sua despedida estava indo por água a baixo. Haviam caminhões com guindastes para levar as goleiras até o outro Estádio, já pronto e apenas faltando os arcos do gol. Mas o relógio já avançava os quarenta e oito minutos, o Grêmio fazia muitas faltas no Flamengo, até que numa delas se rompeu uma confusão perto da área carioca. O confronto dos jogadores logo foi exterminado quando o juiz aplicou dois cartões vermelhos para o Grêmio e um para o Flamengo. Golpe duro para o time tricolor. Os jogadores olhavam para as arquibancadas vertendo água da chuva e lágrimas que escorriam de olhos velhos, que já haviam visto Renato Portaluppi jogar naquela cancha, e de olhos mais jovens, que não haviam visto nenhum caneco ser erguido por um guerreiro tricolor com seu manto sujo de barro. Aquela visão iluminou os jogadores gremistas, que se reuniram em grupo, onde a falta seria cobrada a favor do time gremista e começaram um discurso. A torcida inflamava gritava seu amor pelo Grêmio. O juiz avisou ao capitão do time gaúcho que era só cobrar a falta e assim que desse o jogo terminaria. Todos se posicionaram em seus devidos lugares. A pelota foi chutada junto a água de maneira horrorosa e acabou no peito vermelho e preto de um carioca desavisado da força e valentia de um gaúcho, e como um infante farrapo, ele atropelou o flamenguista levando bola, grama, chuteira, tudo que tivesse pelo caminho. Era falta, mas o juiz não deu. A torcida inflamada sentia o momento histórico que estava acontecendo em frente aos seus olhos. Todos os jogadores do Grêmio correram em direção a bola que ficou sobrando no meio da área. Longe do alcance do goleiro, dos zagueiros, dos atacantes, de todos. Até que todos foram ao seu encontro. Uma cena pitoresca que lembrava mais uma partida de Rugby do que de futebol. Os cariocas assustados pela chuva, pelos trovões, pelo gramado do Estádio, pela torcida, pela força charrua dos gaúchos, olhavam assustados aquele monte de tricolores correndo e pulando, se atirando em direção a bola e impedindo que algum carioca chegasse perto. O juiz colocou o apito na boca para encerrar a partida, a bola circulando ainda na área flamenguista. Nesse instante o relógio marcava exatos quarenta e nove minutos com cinqüenta segundos. O presidente foi até a beira do gramado, seus olhos inchados do choro trágico de segundos atrás viram aquela bola ser rebatida sabe-se lá por quem e parar a poucos centímetros da meta defendida pelo goleiro carioca. E não se sabe quem chutou, só se ouviu o som mais puro e claro de uma bola estufando a rede. Ploft! O Grêmio era Campeão! Campeão de si mesmo, pois naqueles anos o Grêmio disputava seus próprios campeonatos vexatórios e imaginários. A confusão foi generalizada, o juiz terminou a partida e a policia invadiu o gramado. Ninguém sabia o resultado. A televisão não conseguia mostrar o momento do gol. “O gol que ninguém fez”, a única imagem que existia era a bola no fundo da rede, encharcada de barro e água. Alguns minutos depois os mesmos autofalantes que haviam sido ligados para avisar minutos antes que o Atlético Mineiro vencera e ajudara o Grêmio, deram a notícia em voz de choro. Se sentia a emoção na voz daquele locutor que chorava e mal conseguia dizer uma palavra, pedia: “atenção, atenção torcedores e jogadores....”, chorando, e após tomar um fôlego, só conseguiu dar a notícia gritando a plenos pulmões, “FOI GOOOOOOOOL DO GRÊEEMMMIOOOOOOOO!!!!!”. E jamais se viu tanto descontrole num estádio. O Flamengo foi embora do Rio Grande do Sul deixando boa parte de seu material esportivo ainda no Estádio, temendo uma possível fúria da torcida e os jogadores sem acreditar no que o Grêmio havia feito – escapar do rebaixamento e ainda tirar o título dos cariocas – voltavam encharcados de ônibus ainda chorando, e liam algumas placas publicitárias espalhadas pelas estradas de Porto Alegre “Bem vindo a terra do primeiro gaúcho Campeão do Mundo!”. E se deram conta de que o Grêmio nunca deixou de ser um campeão do mundo.

Olímpico Monumental em festa
         E com chuva a torcida invadiu o campo, as maquinas que já estavam desligadas e sem funcionários – pois o presidente tomou a decisão de fazer isso na manhã seguinte, esperando tons fúnebres para a ocasião. Os torcedores se atiravam na lama do gramado, se atiravam nas poças d’agua e em meio aquela confusão de torcedores, os jogadores ali se concentravam, fazendo suas orações e agradecendo por terem sido iluminados daquele jeito. Os quarenta mil torcedores invadiram o gramado, não havia qualquer tipo de reação do clube ou da policia, era apenas uma euforia impossível de controlar. E com algumas palavras junto ao presidente a decisão foi tomada: a torcida levaria as goleiras nos ombros, como uma espécie de romaria até o outro estádio. E o choro se rompeu em todo o lugar, torcedores que não estavam no Estádio invadiam o gramado de todos os lados e se sentiam abençoados por serem gremistas. E naquele descontrole, todos juntaram forças para erguer as traves sobre seus ombros e como mártires que carregam a cruz, a conduziram por longos doze quilômetros. Mil e duzentos metros lavados por choro e barro que escorriam pelo ferro branco das traves. A torcida por vezes gritava cânticos ao Grêmio e sua história, a mais nobre do mundo, e por vezes rompia num choro conjunto de emoção que elevava os ânimos dos que viam aquela procissão que carregava traves santas de um Estádio ao outro. Milhares de torcedores se juntaram aos cerca de quarenta mil que partiram da Azenha rumo ao bairro Humaitá, as margens da Free-Way no outro canto da cidade.
          Quando lá chegaram, as portas se abriram para os torcedores e também para os jogadores que de forma heróica davam seu sangue para ajudar naquela via crucis do futebol. Repórteres acompanhavam incrédulos aquele mais novo feito do time do Grêmio e faltavam-lhes adjetivos para falar do Tricolor Gaúcho Imortal. Imortal, ele provava ser mais uma vez. E as metas foram colocadas dentro da área tricolor e os jogadores e torcedores se juntaram no meio do gramado enquanto a chuva caia, e formaram um coro cheio de emoção, esperança e humildade, e cantaram juntos o hino do Grêmio:






“Até a pé nós iremos
Para o que der e vier,
Mas o certo é que nós estaremos,
Com o Grêmio, onde o Grêmio, estiver...”










Um jogo de estréia marcou a inauguração da Arena do Grêmio. Nacional do Uruguay e Grêmio, repetindo a inauguração do Estádio Olímpico....


 
 
 
 
OBS¹: Esse texto é uma OBVIA ficção.
OBS²: Fotos retiradas do site do Ducker (http://www.ducker.com.br/ )
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Grêmio 108 anos hoje, 15 de Setembro.